Ferreira Bento e o Vorcaro
Osvaldo Pife
A Rua Nova sempre foi icônica. Tinha a família mais numerosa, os Pessoas, empatando com os Catefones. Morava ali o Valrley (nunca aprendi a escrever corretamente o nome do homem baixinho e magro), vendedor de confeito. Lá no alto da rua íngreme, o Seu Campina e sua prole. Ainda no topo, o Jaquinha.
Na verdade, o que salvava a Rua Nova do seu córrego duplo lateral era o sobrado de Dona Carmecita, no topo abaixo, vindo do Campina.
O Ferreira Bento, morador da casa 53, do lado esquerdo, descendo da prole do Campina, alcunha do idealizador de rifas duvidosas, nunca tinha premiado a gente do lugar. Sempre alguém de Coqueiro Seco, do outro lado do mundo, do mundo da gente operária. Sabido como o seu cachorro Vorcaro, animal rabugento, mas roubador dos ossos do Seu Eraldo, o Ferreira Bento sempre sorteava alguém inexistente. Papéis podres.
Não ficou rico, o Ferreira. Passou três meses preso na delegacia, inaugurando a primeira prisão de um indecente daquele lugar benzido pelo Padre Cabral.
O Vorcaro, fiel sabotador e testemunha de tantas rifas enganadoras do Ferreira Bento, deitou-se na porta da delegacia do Cabo Sales, esperando a libertação do seu protetor de uma vida.
Ainda hoje, o Zé Mamão, vizinho de frente da delegacia, não lembra se o Vorcaro morreu de desprezo ou se foi chutado pelo Cabo impiedoso.