Embaixador Oliveira Lima prevê o surgimento do imperialismo norte-americano em 1916 com a Doutrina Monroe

O texto a seguir foi publicado na Revista do Brasil nº 5, de maio de 1916, e tem como autor o embaixador Manuel de Oliveira Lima, um recifense nascido em 25 de dezembro de 1867. Foi escritor, crítico literário, diplomata, historiador e jornalista. Na carreira diplomática, representou o Brasil em diversos países. Era professor-visitante na Universidade Harvard e membro-fundador da Academia Brasileira de Letras.

Apaixonado por livros, colecionou-os ao longo de sua vida e montou o terceiro maior acervo sobre o Brasil, perdendo somente para a Biblioteca Nacional do Brasil e para a biblioteca da Universidade de São Paulo. A Biblioteca Oliveira Lima, situada na Universidade Católica da América em Washington, Estados Unidos, tem 58 mil livros além de correspondência trocada com intelectuais, mais de seiscentos quadros e incontáveis álbuns de recortes com notícias de jornais. Faz parte da coleção ainda um dos três bustos de dom Pedro I esculpido por Marc Ferrez (tio do fotógrafo homônimo), o único dos três feito em bronze.

Faleceu em Washington, EUA, em 24 de março de 1928.

Embaixador Oliveira Lima

***

A Doutrina de Monroe

Oliveira Lima

(Conferencia feita no banquete da Câmara de Comércio de Fall River, perante os Clubes de História e de Economia Política da Universidade de Harvard e perante o Polity Club da Universidade de Princeton).

Todos aqueles a quem se depara a boa fortuna de uma visita a este país de magníficas paisagens e de intensa vida política que se chama os Estados Unidos da América, têm que ver o Niagara e que dar sua opinião sobre a doutrina de Monroe.

Vivi entre vós quatro anos exercendo um cargo diplomático, e desde então aqui tenho vindo duas vezes, a primeira como conferente e a segunda como professor. Sinto dizer que apenas me foi dado admirar uma vez o Niagara; tenho porém tido que dizer muita vez o que penso da doutrina de Monroe. Com quanto não seja cego partidário da coerência, isto é, considere a incoerência inseparável da natureza humana e n’alguns casos prova até de inteligência, posso acrescentar que a minha ideia do assunto não tem variado sensivelmente em vinte anos.

Sinto que esta ideia não seja precisamente a do Secretário de Estado Lansing, o qual bem recentemente, na abertura do Congresso Científico Pan-americano, tratou a doutrina de Monroe de política nacional dos Estados Unidos, o pan-americanismo sendo uma política internacional das Américas. Palavras são estas tendentes a fortalecer justamente a feição da doutrina contra que se levantam objecções e que é o seu caráter egoísta.

O meu falecido chefe em Washington, Dr. Salvador de Mendonça, no seu discurso de despedida ao Presidente Mackinley, exprimiu a esperança que o dia breve chegaria em que as responsabilidades e deveres de manter a independência e a integridade do Novo Mundo pertenceriam a todas as nações que o compõem. “Um por todos, todos por um” como pretende o Secretário de Estado Lansing, só é possível quando um se não sobrepõe a todos.

Eu próprio acredito na doutrina de Monroe e até a considero possível de futuro como um princípio reconhecido, uma vez que deixe de constituir uma doutrina exclusivamente dos Estados Unidos, aplicada por este país, juiz único da sua oportunidade, em nome de todos os outros países americanos, para ampliar-se sob a forma de uma doutrina continental, envolvendo o ensejo eventual de uma política comum, proposta por uma das nações americanas e seguida pelas outras em caso de acordo.

Como realizar este acordo, é a tarefa construtora dos talentos combinados dos homens de Estado desta parte do mundo. Eu apenas me afoito a dizer que este será o único aspecto sob o qual a famosa doutrina logrará sobreviver ao seu fado, passando a ser o resultado de uma resolução geral. Mas será isto ainda a doutrina de Monroe?

A doutrina de Monroe foi uma fórmula de proteção sob a capa de uma promessa de auxílio, e de proteção tem ela continuado a ser até agora. Nestas condições não poderia ter achado lugar por anuência geral no direito internacional, quer o consideremos um código obrigatório ou simplesmente uma reunião de princípios admitidos. O fato é que o Continente da América, em vez de pertencer em plena soberania a cada uma das suas partes, foi daquele modo convertido num apanágio dos Estados Unidos, primeiro diplomático e depois tendendo a tornar-se econômico. As antigas metrópoles, Espanha e Portugal, tiveram que transferir seus direitos e privilégios à nova metrópole do Novo Mundo, não menos ciumenta do que elas.

A melhor prova de que as responsabilidades e vantagens da doutrina de Monroe nunca foram iguais para todos os parceiros, quer dizer, nunca foram idênticas para todo o continente, jaz na circunstância de terem os Estados Unidos reservado para si o direito de escolher a ocasião ou o pretexto da sua aplicação de acordo com os seus próprios interesses. As outras repúblicas, caso apelassem para os Estados Unidos, nunca poderiam ter a certeza de que o seu apelo seria correspondido.

O governo americano não possui obrigações positivas para com os outros governos do continente. Seus compromissos são puramente morais: ele é juiz único das suas intervenções. Não admira que a doutrina fosse considerada suspeita pelos outros países sobre que se estendia, que estes a tenham na conta de uma tutela compulsória que os ameaça. Se dotarmos, contudo, a doutrina daquilo que eu chamei uma feição continental, descobriremos que todo seu aspecto imediatamente se altera, passando a ser tão somente o direito inerente a cada nação de defender sua independência e garantir sua integridade, associando-se para isto com outras, se outras há que pensam do mesmo modo. A doutrina de Monroe aparece-nos a esta luz como o alicerce mesmo do direito internacional.

Como não passo de um diplomata aposentado após um quarto de século de serviço no estrangeiro — vinte e cinco anos teriam um som de mocidade, um quarto de século já traz a ideia de velhice — e que ocasionalmente se atreve a ser um professor, posso bem permanecer fiel à minha ideia e, falando por minha conta e risco, prever que, se continuar a ser uma política nacional dos Estados Unidos, está a doutrina de Monroe destinada a um fracasso. Como política nacional passou o seu tempo e não mais volverá — pelo menos no que diz respeito aos mais importantes países da América do Sul.

Alianças políticas podem vir a formar-se com o propósito de oferecer a raças conquistadoras uma sólida barreira, mas não se chegarão a formar com o propósito de estabelecer a supremacia de uma nação, por mais forte e rica que ela seja, sobre um continente inteiro, sem com isto alterar-se sequer a natureza da doutrina como fonte de justiça internacional.

Devemos estar alerta à circunstância que a doutrina de Monroe pretende haver derivado vida nova da maior das guerras europeias, deste terrível, criminoso, insensato e estúpido conflito que está dilacerando o Velho Mundo e destruindo a civilização, a dele e a nossa também, pois parecemos todos a caminho de adorar a Força em vez do Direito. As denominadas aspirações da Alemanha a uma hegemonia universal emprestaram certamente à doutrina uma viva atualidade e permitiram-lhe tratar de estender sua influência, bem como de ampliar sua significação.

Os Estados Unidos desejam presentemente ver suas repúblicas irmãs — as irmãs podem ser de cores diferentes, se os pais forem de raças diversas — amalgamadas e dispostas a contrariar as ambições europeias, o que quer dizer neste caso a supremacia alemã. A vez do Japão virá depois. O preparo militar é aliás o tópico do dia desde a baía de Hudson até o estreito de Magalhães, mas há uns tantos indivíduos lá para nossas bandas, despidos de reverendas senão de critério, que pensam que a defesa da América Latina deverá exercer-se contra a América Saxônica, aquela que lorde Bryce há bem poucos anos chamava sem malícia, antes com louvor e por simpatia, América Teutônica.

Esta doutrina antagônica não tem nome por enquanto, mas há de ser batizada qualquer dia.

Eu sugeriria o nome de um amigo meu que ultimamente me dizia quão gratos devíamos nós, americanos do Sul, ser ao México pela sua resistência a ser engolido. Esses dez milhões de índios provaram ser tão rebarbativos ao paladar, na opinião daquele amigo, que não há apetite que perdure depois de tal prova.

No Brasil, que é a minha terra, as suspeitas contra os Estados Unidos não são tão evidentes. Tem-se geralmente confiança neste país, e a doutrina de Monroe não encerra para muitos um sentido ameaçador. A América Espanhola, porém, não manifesta por via de regra uma inclinação parecida a uma confiança ilimitada. A guerra cubana, originada numa injustiça feita à Espanha e rematada pela anexação de Porto Rico, e o negócio do Panamá, que o sr. Roosevelt poderá explicar melhor do que eu, aumentaram suas apreensões, o resultado sendo que os que entre nós levam as coisas ao extremo ajuizaram do imperialismo americano com a mesma imparcialidade com que julgam o imperialismo europeu.

Ambos aparecem a esses pensadores como dotados da mesma natureza, e a situação geográfica comum, que se verifica no caso das duas Américas, não torna a pílula mais fácil de engolir: é o seu gosto amargo e não o adocicado do invólucro que prevalece.

Prevê-se a tutela como consequência fatal de qualquer aliança ou acordo do mais forte com o mais fraco, e contra a tutela o sentimento da América Latina é naturalmente um só. Nossas nações desejam manter sua completa independência até para fazer o que não é direito, prova esta cabal de liberdade. A virtude compulsória é uma coisa desagradável, e o pecado também tem sua sedução. Vós puritanos, o não direis porventura, mas é mister não esquecer que somos latinos, ou, o que pior é ainda, latino-americanos. Nossos países só têm por assim dizer prejudicado a si próprios, mui raramente a outros, com excepção talvez da isenção a que alguns se acreditaram com jus em virtude da doutrina de Drago. Esta doutrina argentina proíbe, como sabeis, o emprego de força militar por uma nação a fim de obrigar outra nação ao pagamento de suas dívidas.

Eu não desejo obrigar-vos a um curso de história, em seguida ao que fiz aos estudantes de Harvard, mas não tenho remédio senão ir buscar algumas poucas informações sobre o nosso assunto — assunto de crescente interesse, porque há evoluído de acordo com este vosso país — à ciência denominada mestra da vida. Esta ciência ensina-nos que a doutrina de Monroe tem realmente sido uma “política nacional” dos Estados Unidos, pois que de fato jamais existiu para o resto da América.

A luta da América Espanhola pela sua independência durou 15 anos, de 1810 a 1825, sem qualquer ajuda por parte do governo de Washington, fosse esta embora sob a forma de palavras de animação; a cidade de Buenos Aires foi coagida por navios de guerra ingleses e franceses em 1842 e a ilha de Martin Garcia, no estuário do Prata, temporariamente ocupada por marinheiros franceses, da mesma forma que as ilhas Malvinas tinham sido permanentemente ocupadas por soldados ingleses; as águas territoriais do Brasil foram repetidas vezes violadas pelos cruzadores britânicos à caça de navios negreiros; Valparaiso foi bombardeada em 1866 por uma frota espanhola que já tinha estado em operações contra o Peru; Maracaibo e Puerto Cabello foram em tempos recentes atacados por canhoneiras europeias em virtude de mesquinhas questões de dinheiro — tudo isso sem uma qualquer oposição dos Estados Unidos, cujos interesses se não achavam aí em jogo. Que foi feito da defesa prometida contra as agressões europeias? Os golpes não se sentiram menos pelo fato de não serem dirigidos contra os Estados Unidos.

Em 1895 o Almirantado britânico ocupou como res nullius a ilha da Trindade, que fica a algumas centenas de milhas da costa brasileira e ali arvorou o pavilhão inglês. O propósito era utilizá-la como estação do cabo submarino. A ilha é apenas habitada por imensos caranguejos, aos quais escasseavam, entretanto os meios de provar sua nacionalidade brasileira. O Brasil, como era natural, sobressaltou-se com o ato. Os Estados Unidos consideraram imprudente intervir em nosso favor. Coube ao Rei de Portugal, o pobre Dom Carlos, mais tarde tão covardemente assassinado, declarar como o melhor representante dos antigos dominadores do Brasil, que a ilha em questão tinha tido no século XVIII uma guarnição portuguesa. As ruínas da fortaleza provavam que os soldados portugueses se tinham regalado com alguns dos antepassados dos imensos caranguejos.

Lorde Salisbury de boa vontade acreditou em tal e cedeu, resultando o incidente numa satisfação moral para nós, pois que a Trindade continua a ser deserta e continuam os caranguejos a não ser incomodados.

O protesto do Presidente Cleveland contra a Inglaterra, em prol de Venezuela, constitui um exemplo quase único de proteção dispensada à América do Sul, mas foi seguido de perda de território venezuelano sancionada pela corte arbitral de Paris, reunida sob os auspícios dos Estados Unidos depois que o Secretário de Estado Olney declarou que a vontade destes era o fiat no Novo Mundo.

O Brasil também perdeu em favor da Guiana território indisputavelmente seu e do qual o Rei da Itália dispôs como árbitro, assim satisfazendo seu espirito de transigência. Se o Conselho Federal Suíço em outro caso de arbitramento entre o Brasil e a França, tivesse agido do mesmo modo em extremo conciliador, a França haveria ganhado um reino ao norte do Amazonas em prejuízo do Brasil, uma cousa que teria redundado afinal na negação da doutrina de Monroe.

A declaração de intervenção no México, pouco antes da execução do Imperador Maximiliano, não teve lugar para defender o México; nem mesmo para humilhar a França, pois que esta em 1867 já havia retirado suas tropas e o México teria sido muito mais feliz sob um príncipe esclarecido como era o arquiduque austríaco, do que sob os seus caudilhos índios, Juarez e Diaz, tiranos taciturnos e sanguinários, tão bárbaros quanto os astecas que praticavam sacrifícios humanos. O exemplo do Brasil é inteiramente convincente. País modelo pela sua honestidade sob os seus imperadores, nenhum era mais democrático entre as repúblicas hispano-americanas do tempo.

Eu não censuro por certo os Estados Unidos pela atitude do seu Secretário de Estado Seward nos negócios do México; agiu ele de acordo com o melhor dos interesses da União. Um forte, ordeiro e próspero império latino — próspero por si próprio, não como resultado da exploração estrangeira — colocado na vossa fronteira meridional e tal como Napoleão III o imaginara para impedir a expansão dos Estados Unidos da América para o Mar das Antilhas e países, teria constituído um real obstáculo à vossa grandeza e poderio, as coisas expressamente para cuja animação a doutrina de Monroe foi uma vez formulada e sucessivamente desenvolvida.

Diz-se que a doutrina foi igualmente “concebida em suspeição das instituições monárquicas e em plena simpatia com a ideia republicana”, por outra para manter a integridade republicana do duplo continente, mas a isto eu oponho: 1º. que os Estados Unidos não possuíram melhor amigo na América do que o Brasil, que foi uma monarquia desde 1822 até 1889; 2º. que se não podem razoavelmente denominar repúblicas os governos demagógicos, despóticos e grotescos que então existiam em muitos dos países hispano-americanos.

A substância exata da doutrina de Monroe era afastar ideias de recolonização e desígnios de conquista por parte de nações europeias com relação à América Latina, mas mesmo assim o resultado sempre foi vantajoso para os Estados Unidos. Cuba e Porto Rico, as últimas colônias espanholas do Novo Mundo, foram mais ciosamente guardadas pelo governo de Washington do que pelo governo de Madrid contra todos os planos estrangeiros de anexação. A Espanha pode ostentar essas joias quase durante um século mais, quando chegou o ensejo para a transferência… Porto Rico é hoje uma possessão pura e simples dos Estados Unidos e Cuba é, ao que asseveram alguns, um país livre, mas cuja liberdade envolve ao meu ver algumas restrições. O meu eminente amigo professor Hart considera-a um Estado semi-independente ou protegido. Este é justamente o fado que outras nações da América temem para si, e não podeis censurá-las pelo seu nervosismo.

O professor Hart tem inquestionavelmente razão quando afirma que nações como Cuba ou Panamá não gozam de uma completa soberania. Para sir Thomas Barclay, aliás, que contribuiu para a Enciclopédia Britânica com o artigo entre outros sobre Estado, a doutrina de Monroe produz uma diminuição da soberania de todas as nações americanas, excepção feita dos Estados Unidos, para os quais envolve um direito à suserania. O conhecido internacionalista inglês escreve textualmente que a doutrina de Monroe põe restrições no poder dos outros países americanos de celebrarem tratados com a Europa. Felizmente para eles, que esses países nunca reconheceram formalmente a doutrina em questão.

Nunca pretendi falar senão por conta própria, nem aspiro a dar minha opinião como sendo a dos meus compatriotas, mas agradou-me certamente o deparar nos últimos jornais recebidos do Brasil com um artigo sobre este assunto, escrito por um dos nossos melhores pensadores e filósofos, o sr. Alberto Torres, juiz aposentado da Corte Suprema. Agradou-me sobretudo por ver que suas vistas concordam com as minhas. O juiz Torres escreveu o seu artigo após ler o cabograma publicado por toda a imprensa de todas as Américas sobre a discriminação estabelecida pelo Secretário de Estado Lansing entre a doutrina de Monroe e o pan-americanismo.

Escreve o meu patrício que de fato o pan-americanismo não passa de uma criação imaginária, do produto da fantasia aplicada à política, pois que não corresponde a qualquer identidade ou sequer analogia geográfica, racial ou social, nem traduz uma união necessária ou útil. Provém esse sentimento de uma semelhança de aspirações e fins, ou antes de una sugestão literária comum no momento da independência da América colonial, mas agora reflete, nas expressões do sr. Torres, “a excessiva dilatação de uma força de expansão atingindo a forma fluída de um sonho de absorção continental”.

O pan-americanismo não pode, porém ser mais considerado como um devaneio romântico, desde o momento em que assumiu um caráter prático. Quanto à doutrina de Monroe, sempre revestiu tal caráter e, além disso, deriva da tendência imperialística dos Estados Unidos, como potência mundial, a importância de um título de domínio sobre a totalidade da América. Os países que formam esta parte do mundo, enfeixados pelo pan-americanismo, permanecem deste modo sujeitos à vossa política nacional: tal é a conclusão do artigo que citei, cujo autor brasileiro me era outro dia mencionado por um graduado de Harvard como um dos maiores espíritos de que ele tinha conhecimento.

Um plano recente para fazer a América Latina aprovar a diminuição de soberania de uma sua secção presumo que não operará com êxito. A última intervenção no México afastou-se dos precedentes. Os Estados Unidos foram diplomaticamente representados pelo A B C, o qual não penso que haja ganho cousa alguma com isso, nem mesmo a gratidão do México, pois que a tendência entre as nações é antes de ressentirem-se de qualquer interferência com seus negócios domésticos. O A B C ajudou a substituir o ditador Huerta pelo ditador Carranza: melhorou a situação realmente com isso? É verdade que há piores do que esses dois, esperando sua vez ou tentando sua fortuna, mas o melhor meio de levá-los ao poder é justamente o querer repeli-los pela ação estrangeira. Eles algum dia hão de vencer, ou então tereis vós que fazer a conquista apesar dos vossos compromissos, se é que são sinceros tais compromissos, pois que a sinceridade não faz boa liga com a política.

Li há pouco tempo, em artigo de fundo de um dos melhores diários do Massachusetts, que a anexação de Santo Domingo não deveria ter lugar sem o pleno consentimento e corporação das repúblicas latino-americanas; de outro modo a Europa invocaria o precedente estabelecido pelos Estados Unidos, cujo proceder estaria assim longe de ser limpo de responsabilidades como seria para desejar. Eis um caso em que a cooperação — palavra de que hoje se abusa bastante — tomaria caminho de todo diverso daquele que todos desejaríamos vê-la trilhar. Cooperação afim de sancionar anexações é pior, estou certo, do que uma conquista empreendida por uma só potência. É simplesmente espalhar e repartir por vários as responsabilidades de um ato considerado tão injustificável na sua essência, que se procuram parceiros para abonar sua honestidade.

O mesmo jornal recordou que há 95 anos, em 1820, um grande proprietário rural argentino, discutindo assuntos de política externa com um dos representantes dos Estados Unidos, dissera que a América do Sul nunca depositaria inteira confiança na amizade de uma nação possuidora de colônias. Uma potência colonial é sempre uma potência conquistadora: Roma e a Grã-Bretanha, a Espanha e a Alemanha parecem-se extraordinariamente neste ponto, e os Estados Unidos tornaram-se uma das tais potências. Por isso vivem estes sob a apreensão de choques internacionais.

A pior feição da doutrina de Monroe é ser em demasia elástica: daí talvez provenha também sua melhor recomendação. Estica a um ponto inacreditável e apraz-lhe aparecer sob variados disfarces de forma a servir as conveniências de toda a gente. Julgam-na alguns uma teoria de protetorado e dão para isto suas razões; outros a consideram uma política abandonada, uma coisa do passado, o enredo de uma velha peça, como um drama romântico fora de moda, e também dão para isto os seus motivos.

Ambos os lados têm razão, e ainda devemos contar aqueles que hoje atribuem um sentido diferente do primitivo a uma doutrina que pecava pela clareza quando foi primeiro formulada, num momento deveras oportuno, que chegou então a parecer franca demais, mas no decorrer de um século perdeu sua limpidez para apresentar um aspecto turvo. Será porque se diz em português e também em francês pescar em águas turvas? O peixe é abundante e bom, mas não é isto razão bastante para que se consinta a qualquer turvar as águas com um cacetão, o que apenas serve para assustar o peixe e fazê-lo fugir, não obstante a isca do pan-americanismo.

O pan-Américanismo, na verdade, não traduz uma realidade. Não existe uma comunidade de raça, nem de língua, nem de religião, nem de tradição entre a América Saxônica — chamá-la-ei, como Bryce, Teutônica? — e a América Latina. A situação geográfica nada significa com distâncias como as que separam a América do Norte da do Sul, tendo para mais o canal do Panamá destruído a ligação entre os dois continentes. Nós, contudo, possuímos, senão tradições, pelo menos certos sentimentos comuns, e tais sentimentos podem agir de acordo em casos especiais e determinar excelentes resultados. Assim bem pode o pan-americanismo continuar a representar o ideal de uma união, para aqueles que acreditam nela ou então que querem que os outros acreditem. Todos estes ismos são chamarizes de grande efeito, e nem é preciso infelizmente mais do que chamarizes para levar os homens a praticarem os feitos mais heroicos ou mais abjetos. Eles atuam sobre a natureza humana com força igual à de um peso concreto e sólido.

Se ajuntarmos um real interesse recíproco à sugestão daquela relação abstrata e simbólica, esta é capaz de adquirir um grande vigor, nada mais sendo preciso para o seu triunfo. Para que estabelecer uma ligação compulsória quando uma amizade espontânea, ou calculada que seja, corresponde ao fito e permite conservar uma liberdade de pensamentos e ações tal como mal se poderia manter com uma atitude constrangida? Não deveis esquecer que a doutrina de Monroe pode ser a doutrina Americana ou até a panaceia universal que alguns querem nela enxergar, mas que não serve de fundamento a um pacto voluntário. Ora, a vontade é tudo em casos tais. Sabeis perfeitamente que há cães que preferem ser escanzelados e andar esfomeados à solta, a serem nédios e luzidos, presos por uma coleira.

Eu compreendo perfeitamente o desejo dos Estados Unidos de converterem a doutrina de Monroe num princípio de direito internacional — de direito internacional americano, senão do europeu. Esta divisão do direito das gentes em duas secções, tão surpreendente para os que apenas o entendem de uma maneira, foi na verdade uma maravilha de previsão, particularmente depois que o direito das gentes na Europa entrou a praticar travessuras tais que é preciso estar a cada momento a admoestá-lo, sem que ele aliás se incomode com isto. Contudo o reconhecimento da Europa é dispensável ou pode sê-lo em tempos agitados como estes nossos, em que a propósito de tudo se suprimem garantias e avisos, mas o reconhecimento da América constitui uma formalidade necessária para converter num princípio obrigatório aquilo que lord Salisbury uma vez definiu como uma “norma política”.

Tal norma exige pelo menos a aprovação das outras nações, às quais tem que ser aplicada antes de tornar-se um acordo internacional. Sem semelhante aprovação, continuando entretanto a insistir pela adopção da norma em questão, este país estaria simplesmente assumindo a tarefa de legislar sozinho para o mundo, quando de fato estaria simplesmente trabalhando para seu próprio e exclusivo interesse.

Intervenção sempre implica proteção, mesmo quando tem lugar em oposição a desígnios de terceiro, e nossa gente, com razão ou sem ela, vê na intervenção meio caminho andado para a anexação. Estarão os países latino-americanos fazendo injustiça aos Estados Unidos ao manifestarem esses receios? Se prosseguirdes anexando ilhas no Mar das Antilhas e tomando posse de zonas de canal como nestes últimos vinte anos, como deixar de atingir a terra firme na costa Setentrional do continente Sul? O resto seguir-se-ia em devido tempo.

Motivos de anarquia doméstica podem ser invocados mais ou menos iguais; razões de defesa estratégica são inteiramente iguais. O canal ali está a pedir proteção para funcionar, sempre que o permitirem os desabamentos de terras. Graças a ele e segundo o sr. Richard Olney, que é um grande jurisconsulto e um homem de Estado de não menor valor, os Estados Unidos não são mais uma potência simplesmente norte-americana: tornaram-se também uma potência sul-americana, digamos uma verdadeira potência americana. Desapareceu o istmo, mas vós destes um salto para a outra banda e viestes tomar assento entre nós, à cabeceira da mesa. Não será algum dia preciso a cooperação latino-americana para deter tamanha força de expansão ou, noutro sentido, para honrar um conviva assim intrometido?

A cooperação tem a grande vantagem de reunir forças de diferente valia num mesmo nível, e as pequenas nações da América, que não seriam de outro modo capazes, pelos seus únicos esforços, de oferecer uma resistência idônea, depararão assim com a proteção devida à sua própria existência. Não há razão para que tal cooperação não seja eventualmente reclamada pelos Estados Unidos e convenientemente correspondida pelas outras nações da América.

As pequenas nações do Novo Mundo aspiram simplesmente ao mesmo tratamento que é considerado justo e honesto quando se trata das pequenas nações europeias: elas são as Bélgicas, e os Montenegros, e as Sérvias do nosso continente, se bem que sem o progresso político da primeira, o pitoresco histórico do segundo e as trágicas recordações da terceira, por quanto se têm sido assassinados ditadores na América Latina, suas esposas têm sido poupadas. Nenhuma jamais sofreu o triste fado da rainha Draga e da esposa do arquiduque Franz Ferdinand.

Quanto a mim, pertenço ao maior dos países da América do Sul, país tão vasto quanto os Estados Unidos e o mais populoso da América Latina: por isso se não pode dizer que falo precisamente pro domo mea. Para engolir território tão imenso seria mister um daqueles animais fantásticos das lendas, um dragão com a boca tão grande quanto a do Mississipi ou a do Amazonas, e a digestão a seguir-se seria das mais penosas. A presa haveria que ser dilacerada e abocanhada também por outros dragões, o que poria cobro à doutrina de Monroe. Estou falando com um bom e velho amigo deste país, onde se têm passado alguns dos melhores anos da minha vida e no qual sou devedor de grandes atenções e cortesias.

Não é preciso que estejais a cada momento invocando a tal doutrina com uma insistência de enervar, ou mesmo de irritar pelo que implica de tutela de uma irmandade composta de algumas respeitáveis senhoras e de outras tantas raparigas, eventualmente um tanto estouvadas, mas todas elas com mais compostura e melhores maneiras do que estão demonstrando ter suas avós europeias. A cooperação — esta é a ocasião própria de usar da palavra da moda na linguagem política — há de parecer-vos tão fácil e muito mais fecunda sem esse apelo de cada dia, de cada minuto, que nos faz algumas vezes desejar que Monroe e John Guincy Adams nunca houvessem existido.

Quantos aliás, mesmo neste país, sabem precisamente o que significa a doutrina, o que foi que Monroe escreveu a respeito? O que todos sabem é que se trata de uma cousa equivalente a América para nós. O nós deve, porém, abranger todo o grupo de povos e nações da América. Um estadista argentino, o falecido Saenz Peña, que morreu quando presidente do seu país, disse um dia — foi na sessão de encerramento da conferência de 1889-1890, onde Blaine formulou sua “política nacional” de pan-americanismo — que a América não devia ser só para os americanos, mas para a humanidade inteira. É este um programa muito mais nobre e de mais larga inspiração, no mesmo tempo muito mais simples e mais prático. Nossas terras estão francas a quem quer que queira trabalhar nelas e por elas, assim como devem ser hostis a todo aquele que pretender dominá-las. Ora, para uma melhor, mais efetiva e mais eficiente defesa da sua independência e integridade, devem elas começar por possuir uma consciência plena da sua soberania, a qual cessa de existir desde o momento em que se lhe puserem restrições.

As nações devem ter a liberdade de associar-se quando, como e com quem preferirem ou acharem mais conveniente, ou então de permanecer num isolamento mais ou menos esplêndido. Os Estados Unidos responderam há pouco à Suécia, que lhes pedia a cooperação a fim de convocar-se uma conferência de neutros tão necessária para a paz do mundo, que sua tradição é de agir à parte, por si próprios. Outros países podem pensar e desejar agir do mesmo modo: porque constituirá a doutrina de Monroe um obstáculo a um proceder independente da parte dos países latino-americanos?

Vossos diplomatas na América Latina referem-se raramente à doutrina, sabendo quão pouco isto agradaria. Esta eliminação, por mal cabido, de um tema retórico próprio para o consumo doméstico, dá-se com grandíssimo proveito, senão da “política nacional”, pelo menos dos interesses nacionais do seu país. Os que aqui citam, em cada discurso e em cada artigo. Monroe e sua mensagem do fruto proibido, não avaliam quanto embaraçam os esforços, tendentes a uma sã e sólida inteligência entre os Estados Unidos e as nações latino-americanas, de homens como o embaixador Morgan, que no Brasil trabalha para tornar o nome dos Estados Unidos não só respeitado como querido.

Outros tendes como ele, especialmente porque faz parte da vossa boa fortuna não possuirdes por enquanto uma casta diplomática. Vossos representantes são homens em contato com as atividades legítimas do país, homens que como professores, jornalistas, manufatureiros, comerciantes, etc., pertencem às classes vivas, às classes que representam os fundamentos progressivos de uma comunidade. Não as compõem frívolos observadores e impertinentes críticos de feitos mundanos, e por isso compreende tão bem essa gente que quanto menos se falar na doutrina de Monroe, tanto mais se conseguirá promover o que no seu último desenvolvimento pretende ela ser ou de fato deverá ser uma solidariedade de esforços entre sociedades oriundas de berços diferentes, mas com ideais comuns de equidade, de progresso e de cultura humana.

Boston, 1916.

OLIVEIRA LIMA.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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