O Alpinista    

Henry Leite Pinho                                                                                  

O afinco, a entrega total, são os indispensáveis veículos que conduzem a obtenção do algo maior. É asnice supor que iremos colher maná no deserto do nosso despreparo. Não creia muito nas negociatas que tentamos estabelecer com seres que habitam à luz. É asneira pensar que a oferenda do nosso archote de luz bruxuleante sirva pra guiar os passos de quem habita nela. Seria mais lógico se acabássemos com essa louca trapaça e oferecêssemos a nós mesmo a dedicação como senda desse desejo maior.

Na Ásia temos a famosa cordilheira do Himalaia que traz como engaste principal o pico do Everest, sonho de qualquer alpinista dedicado. Há os que almejam tão desafiante feito e trazem consigo como a maior façanha de sua vida. Ansiar é necessário, todavia não é suficiente. Não, não basta dizer que vai tentar tão homérico feito. Quer conseguir?

Busque-o com a mesma intensidade de quem necessita do ar para continuar vivendo. Respire profundamente e tome por propósito a não exalação. Notará, facilmente, que o mesmo ar que lhe dá a vida, traz escondido a morte. Cuidado, reter é perecer. Moderar dedicação no hoje, significa derrotas no porvir.

Um belo dia o nosso destemido alpinista resolveu partir convicto de seu preparo. Chegando ao sopé, deparou-se com o gigante taciturno e observador. O silêncio foi quebrado por uma voz trovejante.

— Afinal, que desejas? Não me diga que veio, até aqui, apreciar a minha base.

— Não, disse o alpinista, vim escalar-te.

Uma gargalhada ecoou por toda a cordilheira.

— És louco?

— Não, é o meu sonho, disse o alpinista.

— Sabia; gostei de ti. Vou lembrar-te de que a minha encosta é um verdadeiro cemitério. Sou obrigado a acolher nas minhas entranhas o sonho de centenas de insensatos. Sou, na minha solidão, muito observador. Vou segredar-te algo muito importante. Aqui chegaram alguns que até eu mesmo acreditei que conseguiriam. Tenho armadilhas que independem de mim. Não sou o senhor das tempestades e nem do frio congelante que me visita e que leva consigo o sonho de tantos aspirantes. Qual sentido faz presenciar tanto sofrimento, sem nada poder fazer? A natureza, não sei com que propósito, me aferiu tamanha incumbência, portanto, sigas o meu conselho, vás, prepara-te com afinco que estarei de braços abertos, não para roubar-te à vida, mas para parabenizar-te por haveres realizado o teu sonho.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

Um comentário em “O Alpinista    

  • 1 de novembro de 2025 em 11:19
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    Um excelente Conto
    De um excepcional escritor alagoano
    Sucesso!!!!!!!!!

    Resposta

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