Rés do Biu Gago

Osvaldo Pife

“Geruza, o menino tosse demais.” “Né não, é elergia”

“Tá gogo”

“Ouvi não o estalo do catarro. Vôte”

Quase seis da manhã, a Geruza botou a sua saia curta, como sempre, e partiu para a rua da Bica.

A Geruza nunca tinha usado calça lee, nem bermuda, que eram coisas de homem. Usava saia prinçada.

“Biu, Biu… Biu Gago!”

O Biu morava na rua da Bica, uma mistura de escadas, rua larga e um chafariz de água fraca, mas que resolvia a cozinha da mulher do Seu Dudu.

O fusca verde, plantado sobre o meio-fio, era o único socorro de todos os socorros da gente do lugar. Sem ambulância moderna de hoje, a baratinha fazia… digamos, milagre.

“Biu”

“Ôi! Geruza?” – ainda sonolento do porre do domingo.

O Biu era Gago, não por ser gago. Era apelido. Pronto. Fernão-Velho tinha dessas.

“Biu, preciso levar meu menino para o Dr. Diógenes, no Tabuleiro. Tá com gogo”

“Vai pra casa, chego já”

Chegou. Menino e Geruza na calçada, já.

Entraram na baratinha.

A Geruza, de terceira vértebra danificada, impô, reclamando da falta da cadeira da frente do carona, com a corda de nailon para o Biu puxar a porta.

Mas o menino já tinha entrado no banco de forro plástico no fundo do fusca verde.

O Biu abriu a chave e acelerou no ponto morto.

Colocou a prise. O verdinho deu um salto para trás.

Primeira de novo, outra ré.

Desligou e ligou novamente.

— “agora vai”.

Tonhonhonhohon. Engatou a primeira.

Ré de novo. Outra vez. Ré.

“Geruza, dá pra chamar o Zé Utinga?”

Não sei do destino da Geruza e do menino.

Sei do verdinho subindo de ré para a rua da Bica sem reclamar do motor.

O Biu era a salvação de nossas dores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *