Deu bobeira

Osvaldo Pife
Imagem criada por IA

Andou acabrunhada recentemente devido a um pé de Flocos-de-neve ter morrido, logo no início do outono. Era seu xodó. Não teve um dia sequer, durante cinco anos, que a tal Gardenia-branca ficasse em solidão. A voz, as mãos e o olhar da jardineira consolavam o branco flácido da planta ciumenta. Sim. Ciumenta. Nunca me quis. Murchava, aquietava-se e queimava-se por teimosia, quando eu a atacava com estrumes, adubos e águas.

Queria só o amor da jardineira.

Nunca me arroguei da amizade, ou do amor, delas, claro, apenas assistia aos seus sorrisos inocentes e cúmplices.

De bobeira, a jardineira saiu do chuveiro com a toalha sobre o busto. Seu perfil nu deixou escorrer um fio de água, lentamente, como quem buscava os calcanhares, seus destinos.

Fez de contas que não me tinha visto, e se deixou levar até a cama.

Envolvi sua silhueta sob meus braços.

Entre as brechas de uma cortina meio aberta, ao largo do quarto, vi a avenca piscar suas dezenas de olhos em nossa direção. Sem ciúmes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *