Esquemas da FIFA: o FBI entra no jogo

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Em 1978, talvez 1979, como jovem Encarregado interino de Negócios na Embaixada do Brasil em Abidjan, Costa do Marfim, recebi juntamente com autoridades e personalidades marfinenses, no salão VIP do aeroporto Port Bouet, o presidente da Fifa e seu séquito para uma visita de trabalho de três dias.

A presença de João Havelange em Abidjan teve o mesmo protocolo e as mesmas homenagens normalmente prestadas aos reis europeus ou ao presidente da França, caixa forte da África Ocidental na época.

O Estádio Félix Houphouet Boigny, nome do pai da independência e ainda presidente da República naquele momento, abrigava jogos de futebol entre times locais e visitantes.

Muito embora o estádio fosse moderno e amplo, as equipes eram praticamente amadoras. Os futebolistas comiam e bebiam antes de jogar para ficar fortes e conseguirem detonar chutes que faziam a bola voar para fora do Estádio, como vi acontecer na minha infância na disputa de chutes mais fortes de Canhoto e Canhoteiro, nos antigos estádios do CSA e do CRB em Maceió.

Havelange trazia, com seu porte atlético e gestos polidos, a promessa de criação de uma Confederação Africana de Futebol, com apoio técnico e financeiro da FIFA.

Mais do que um rei era um deus alienígena que havia aterrissado em Abidjan.

O périplo de Havelange começou por uma visita ao núncio apostólico, embaixador do Vaticano na neocristã Costa do Marfim.

Para abrilhantar sua visita havia agendado um jogo entre a seleção sub-20 do Brasil e a seleção formada às pressas da Costa do Marfim.

O troféu FIFA foi entregue aos jovens vencedores por Havelange e por mim, ainda na casa dos 23 anos, naqueles idos dos chutes foguetes.

Em 1978, Havelange havia sido alvo de críticas esmagadoras pela escolha da Argentina como sede do mundial de futebol, colocando a FIFA conivente com a cruenta ditadura do General Videla, no auge da tortura na Escola da Marinha e da repressão generalizada, assassina, contra os opositores do regime.

Até aquele momento a FIFA era um clube exclusivo de europeus e sul-americanos, duas fontes de apoio global aos Direitos Humanos, desde que fora de suas fronteiras.

Havelange contrabalançou manejando com maestria o prestígio e a paixão pelo futebol do Brasil na África e em todo o terceiro mundo em geral. Tinha o apoio de Pelé.

Criou e ajudou a consolidar financeiramente a Confederação Africana, Asiática e da América do Norte, América Central e Caribe.

Nos Estados Unidos, Henry Kissinger insistia em levar o futebol de origem inglesa para lá. Considerava o “soccer“, como é chamado entre eles nosso futebol, uma arma política de enorme importância para a projeção geopolítica mundial dos Estados Unidos.

Até então, praticamente só as mulheres jogavam “soccer” nos colégios e universidades americanas.

Velho e milionário, o membro fundador da nova FIFA global passou o bastão para seu fiel secretário geral e escudeiro Sepp Blatter.

Blatter deu sequência ao trabalho de Havelange e reforçou os vínculos da FIFA com África, Ásia e Américas, incluindo o Caribe.

Foi ao coração do povo, criando importantes projetos sociais nesses países pobres a partir do futebol, adorado pela criançada e objeto de interesse de políticos e empresários, que também queriam morder uma fatia do dinheiro da bilionária Federação Internacional de Futebol.

A desgraça da FIFA começou quando Blatter contrariou o desejo de Kissinger e do presidente Clinton em 2010, na escolha das sedes da Copa para os anos de 2018 e de 2022.

No documentário ESQUEMAS DA FIFA, ainda na Netflix, é visível a perplexidade e a incredulidade de Bill Clinton, presente ao evento, quando Blatter anuncia a Rússia em 2018 e o Catar em 2022 como sedes da Copa do Mundo. Foi uma humilhação.

Uma paulada nos Estados Unidos da América.

Ali começou a ser desenhado o processo de vingança e destruição da FIFA pelos Estados Unidos.

Sediada em Zurique, Suíça, paraíso mundial das contas secretas, lavagem de dinheiro e todo tipo de ativos financeiros, a FIFA era intocável.

Logo criou-se uma nova legislação nos Estados Unidos sobre a legalidade da aplicação das leis americanas extraterritoriais, em qualquer lugar do mundo, desde que os crimes tivessem ocorrido em território norte-americano no decorrer do processo criminoso.

Obama, em 2015, concluiu o projeto de vingança de Clinton. O FBI, em cooperação com a polícia suíça, de surpresa, prendeu toda a cúpula dirigente da FIFA na Suíça. Foi um Deus nos acuda.

Para começar tudo do zero, não podiam aceitar o candidato planejado por Blatter: Michel Platini, ídolo do futebol francês.

Foram buscar alguém fora do radar: Gianni Infantino, o mais novo amigo de Donald Trump.

Na atual Copa do Mundo, realizada na América do Norte, pairam nuvens obscuras e um cheiro de enxofre no ar: o FBI, a mando não se sabe de quem, está investigando uma transferência de 300 milhões de dólares da Federação Argentina de Futebol, a AFA, para pessoas e entidades aparentemente ligadas ao bilionário mundo do futebol.

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