Um duelo entre Liszt e Chopin

(Publicado no jornal Evolucionista (AL) em 7 de abril de 1905).

A cena passa-se por uma tranquila noite de maio, no grande salão do Château de Nohant, onde está reunida a melhor sociedade inglesa.

Liszt tinha tocado um noturno de Chopin, e, segundo o seu costume, tinha-o rendilhado à Liszt com trilos, trêmulos e suspensões. Chopin, que estava presente e não pode pôr fim conter a ira, aproximou-se do piano e disse a Liszt, com a sua fleugma habitual:

— Peço-lhe, meu caro senhor, que, quando quiser tocar alguma das minhas composições, a execute como está escrita, ou então escolha outra coisa qualquer. Ninguém, a não ser Chopin, tem o direito de alterar Chopin.

— Muito bem, toque-a então o senhor, disse lhe Liszt, levantando-se da cadeira todo ofendido.

— Da melhor vontade, respondeu Chopin.

Neste momento uma borboleta esvoaçando sobre a luz, apagou-a.

Como alguém quisesse reacendê-la, Chopin exclamou:

— Não, retirem todas as luzes, a lua alumia-me bastante.

Tocou então durante uma hora.

Descrever-se como tocou é impossível.

emoções que não se podem traduzir. As toutinegras cessaram o seu canto, para ouvir; as flores bebiam como divino orvalho aqueles sons divinos que partiam do céu; o auditório em um êxtase não se atrevia sequer a respirar, e, quando o charment terminou, todos os olhos estavam rasos de lágrimas e entre eles os de Liszt, que, levantando Chopin nos braços, exclamou:

— Ah! meu amigo, tem razão. As obras de um gênio como o seu são sagradas. É profanação tocá-las. É realmente um poeta, e eu não passo de um charlatão.

— Basta, retorquiu imediatamente Chopin. Cada um de nós tem o seu gênero: o senhor o seu, eu o meu. Sabe muito bem, que ninguém no mundo pode interpretar Weber e Beethoven como o senhor. E por isso peço-lhe toque o adágio em sustenido menor, de Beethoven, mas excute-o com seriedade, como costuma fazê-lo quando quer.

Liszt locou esse adágio com toda a sua alma e vontade. O efeito produzido no auditório foi inteiramente diverso. Alguns choravam, outros soluçavam; não eram, porém, as suaves lágrimas que Chopin tinha feito verter, mas as lágrimas cruéis de que fala Otelo.

A melodia do segundo artista, em vez de penetrar docemente no coração, afundou-se nele como uma adaga.

Não era uma alegria, era um drama.

Contudo, Chopin julgou-se vitorioso nessa noite, por ter eclipsado Liszt, e disse, com certa ufania:

— Como ele ficou enraivecido!

Liszt, ouvindo isto, resolveu vingar-se.

A oportunidade ofereceu-se-lhe, quatro ou cinco dias depois. A mesma sociedade estava reunida, pouco mais ou menos, à mesma hora, perto da meia-noite.

Liszt pediu a Chopin que tocasse, anuindo este, depois de muito instado. Pediu Liszt que retirassem todas as luzes e se corressem todas as cortinas, a fim de obter a completa escuridão.

Era o capricho de um artista, e prontamente foi satisfeito.

Mas, quando Chopin se colocava ao piano, disse-lhe Liszt algumas palavras em segredo e tomou o seu lugar.

Chopin, que nada suspeitava das intenções de Liszt, sentou-se, silenciosamente, em uma cadeira próxima ao piano.

Liszt tocou exatamente todas as composições que Chopin tinha executado naquela memorável noite de que falamos, e disse-as com tão maravilhosa imitação do estilo e maneira do seu rival, que seria impossível não se ficar iludido, e, de fato, isso sucedeu a todos. O mesmo encanto, a mesma emoção atuou sobre todos.

Quando o êxtase estava no seu auge, Liszt feriu de repente um fósforo e acendeu a luz do piano.

Uma exclamação de surpresa partiu de toda a sala.

— Que! É o senhor?

— Como veem — replicou Liszt, serenamente.

— Mas julgamos que era Chopin.

— Que supôs o senhor? — perguntou Liszt alegremente ao seu rival.

— Eu, como todos, supus também ser Chopin.

— Vê, pois, — disse Liszt, levantando-se — que Liszt pode ser Chopin, quando quer. E Chopin pode dizer o mesmo de Liszt?

Foi um desafio, que Chopin não teve desejos, nem se atreveu a aceitar.

Liszt estava vingado.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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