PIX x Cartões de Crédito: a batalha pelo lucrativo mercado das transações financeiras

Edberto Ticianeli
Jornalista

Depois de um largo período histórico sob o domínio da agiotagem, surgiu no ano de 1407, em Gênova, na Itália, a primeira instituição bancária estatal habilitada a receber depósitos em dinheiro. Como dinheiro troca de dono todos os dias, ainda na Idade Média a mudança dos depósitos de uma conta para outra somente acontecia autorizada pelo titular, que se valia das ordens de pagamentos ou cheques. Assim permaneceu por muito tempo.

A primeira grande mudança nessas operações teve inicio graças a um avanço tecnológico. Com a ampliação da utilização do telégrafo mundo afora, o depositante podia ir até uma agência telegráfica e de lá autorizar a transferência. A Western Union lançou esse serviço em 1872. Uma revolução para a época.

Nas agências bancárias, a transferência ocorria com os saques e depósitos devidamente anotados pelos caixas numa ficha de papelão amarelado e ensebado pelo constante manuseio. Não esquecer que eram cobradas tarifas sobre esta operação, a exemplo de várias outras.

Com o advento da internet, surgiu o home banking em outubro de 1980, nos EUA, e rapidamente se espalhou pelo mundo. Esse avanço tecnológico permitiu que, a partir de um computador e utilizando-se de uma linha telefônica — com o seu jurássico telefone fixo —, o usuário realizasse várias operações bancárias, entre elas, a transferência de valores, que no Brasil, depois de 1985, se dava via DOC (Documento de Ordem de Crédito). O seu irmão mais rápido, o TED (Transferência Eletrônica Disponível), somente nasceu em 2002.

Foi nesse período de inovação tecnológica que apareceram os caixas eletrônicos e os cartões bancários, úteis para quem não tinha computador em casa ou na empresa. E assim, rapidamente diminuiu-se o acesso às velhas e desgastadas fichas de papelão, com suas as anotações bancárias. Tudo isso migrou para o mundo digital, permitindo que o cartão de crédito também surfasse essa onda ao associar-se ao cartão bancário.

O cartão de crédito apareceu nos EUA na década de 1920, mas restrito a clientes especiais. Só começou a ser mais utilizado a partir da década de 1950 (Diners Club e, em 1958, American Express). No Brasil, o Diners chegou em 1956.

O primeiro cartão de crédito brasileiro foi o Elo, do Bradesco. Começou a circular em 1968 como uma filial brasileira da Visa. Era voltado para os turistas estrangeiros, usuários dos cartões BankAmericard.

Essas operadoras ofereciam maquinetas para facilitar as vendas e, caso fosse realizada a prazo, era garantido o pagamento das parcelas. Mas isso tinha um preço: cobrava-se uma taxa de 5% (em alguns casos, um pouco menos) e o comerciante somente via a cor do dinheiro 30 dias depois, permitindo que as operadoras dos cartões se capitalizassem a custo zero. Caso o usuário atrasasse o pagamento das mensalidades, os juros cobrados eram estratosféricos. Outra enorme fonte de ganhos.

O negócio era tão bom que entre 1997 e 2010, 70 bandeiras se instalaram pelo Brasil. A MasterCard e a Visa passaram a liderar o mercado desse tipo de compra, mesmo enfrentando, a partir de 2014, os chamados Bancos Digitais, que passaram a oferecer cartões de crédito sem anuidade (Nubank, Banco Inter e C6 Bank).

Em junho de 2020, um forte concorrente entrou na disputa pelo sistema de transações financeiras via internet. O WhatsApp anunciou naquele mês que iria oferecer no seu aplicativo um “iniciador de pagamentos“. O Brasil seria um dos primeiros países do mundo a testar essa modalidade.

O Banco Central não autorizou, argumentando que era preciso avaliar melhor os riscos concorrenciais, além de garantir o seu funcionamento devidamente adequado ao Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB).

O que o WhatsApp não sabia era que desde 2016, ainda no governo de Michel Temer, uma equipe de técnicos do Banco Central passou a trabalhar no projeto que visava a implantação de um sistema de pagamentos instantâneos. A montagem da plataforma começou em 2018 e foi acelerada depois que o WhatsApp anunciou esse mesmo serviço, via seu aplicativo.

Em outubro de 2020, o Pix entrou em fase de cadastramentos e, em testes, no dia 3 de novembro. Foi lançado oficialmente em 16 de novembro daquele mesmo ano. Em agosto de 2023, o Banco Central deixava claro que havia a disputa do Pix com os cartões de crédito ao anunciar que existiam estudos para oferecer crédito ao consumidor por meio deste serviço, que receberia um “agregador financeiro“.

Campos Neto, então presidente do BC, explicou em entrevista como isso funcionaria: “Você vai juntar o Pix e outros produtos, lembrando que você vai poder começar a poder fazer crédito no Pix, então, em algum momento, no futuro, você não precisará ter cartão de crédito, poderá fazer tudo no Pix”. Um detalhe: Campos Neto é um dos que manda no Nubank em território nacional.

A partir de 4 de junho de 2025 teve início o Pix Automático, permitindo o agendamento dos pagamentos periódicos. Faltava o Pix Parcelado. Não falta mais. A partir de setembro de 2025 já será utilizado.

E assim, o WhatsApp comeu farinha.

Mas, o que é mesmo esse sistema de pagamentos instantâneos? Nada mais que a centenária transferência de dinheiro entre contas, que mais uma vez se agilizou por surfar nas novas tecnologias, desta feita utilizando os celulares, principalmente.

Mas dessa vez, não foi apenas uma simples modernização do sistema de transferência de valores. O Pix foi de tal forma aceito, que vai deixando para trás, gravemente feridos, os cartões de crédito e o papel moeda. Enterrou os DOCs e as TEDs. E aquela montanha de dinheiro, oriunda dos 5% das taxas de serviço cobrados pelos cartões de crédito, deixou de ser enviada para a sede das empresas nos EUA como acontecia antes. As perdas deles foram significativas no Brasil.

Por outro lado, o comércio brasileiro festeja o Pix não só por livrá-lo das taxas e da demora em receber seu dinheiro das bandeiras, mas principalmente por quase acabar com as compras parceladas. No Pix, pelo menos até o próximo mês, o pagamento por transferência é a vista.

Esse ganho foi tão expressivo que em alguns aplicativos de vendas por entrega em domicílio, o sistema já dificulta a operação com cartões de crédito.

Quem não vê com bons olhos o Pix brasileiro? As big techs (Apple, Google, Amazon, Microsoft e Meta), que também se habilitam a disputar o mercado com os cartões de crédito, e, no caso do Brasil, as operadoras dos cartões de crédito, que deixarão de existir se esse tipo de pagamento por transferência for adotado em todos os países.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *