Os esquecidos combatentes africanos na libertação da França (1943–45)
Edberto Ticianeli, com IA
Nunca foi muito divulgado, mas a libertação do sul da França em 1944 se deve, em grande parte, a um exército francês constituído majoritariamente por soldados oriundos do continente africano — do Magreb, da África Ocidental e Central, que compuseram as Forças Francesas Livres, exército comandado por Charles de Gaulle.
Esses combatentes vieram principalmente das possessões africanas e foi graças a eles que a França pode se libertar do domínio nazista.
Esses contingentes eram formados por fuzileiros “senegaleses” (na prática, recrutas de vários territórios da África subsaariana), argelinos e tunisianos, marroquinos, goumiers (tropas leves marroquinas), além de spahis (elite da Cavalaria) e outras unidades da Armée d’Afrique (corpo do exército metropolitano francês, com sede no Norte da África).
Na Armée B (futuro 1ª Exército francês), que desembarcou na Provença, a composição era predominantemente africana, entre 240 e 250 mil homens. Entre suas principais divisões estavam a 3ª Divisão de Infantaria Argelina (3e DIA), 2ª Divisão de Infantaria Marroquina (2e DIM), 4ª Divisão Marroquina de Montanha (4e DMM) e a 9ª Divisão de Infantaria Colonial (9e DIC), que alinhava regimentos de fuzileiros “senegaleses”. Estima-se que quase um milhão de soldados africanos tenham lutado ao lado dos Aliados.
Depois de combates na Córsega e na Itália, esses soldados foram essenciais no Desembarque da Provença em 15 de agosto de 1944. Em menos de duas semanas, com papel destacado dos goumiers marroquinos e das divisões argelinas, tomaram os portos estratégicos de Toulon e Marselha (28 de agosto de 1944), abrindo a rota logística que sustentaria o avanço aliado. Em seguida subiram o vale do Ródano, lutaram nas Vosges — onde há registros fotográficos de fuzileiros da 9ª DIC combatendo na neve em novembro de 1944 — e prosseguiram pela Alsácia até a fronteira alemã.
Paralelamente, a coluna “africana” do coronel Philippe Leclerc (forjada no Chade e no deserto da Líbia, com o célebre Juramento de Kufra, em 1941 (“Juro não depor armas até o dia em que nossas cores, nossas belas cores, tremulem sobre a Catedral de Estrasburgo”), evoluiu para a 2ª Divisão Blindada, que libertou Estrasburgo em 23 de novembro de 1944.
Mas a França não soube reconhecer a contribuição decisiva das forças africanas em sua libertação e, já a partir de setembro de 1944, iniciou o “branqueamento” das suas unidades militares com a substituição gradual de africanos por combatentes das FFI (Resistência interna). Argumentava que isso acontecia por questões logísticas e políticas (unificar a Resistência e acomodar sensibilidades aliadas). O processo reduziu a presença africana nas formações que atravessaram a França, e ajuda a entender porque sua participação ficou por tanto tempo à margem das narrativas oficiais.
Algumas ações de resgate desses heroicos combatentes vem acontecendo, a exemplo das homenagens prestadas a eles em 2024, durante as comemorações do 80º aniversário do desembarque da Provença. Além disso, houve avanços recentes na concessão de pensões e direitos de residência para os fuzileiros muito idosos. A França também reconheceu como massacre a repressão de Thiaroye, em 1º de dezembro de 1944), quando fuzileiros da África Ocidental foram mortos ao reivindicar soldos atrasados.