As estrelas também brilham no chão

Pedro Cabral

Minha tia-avó não lia livros para mim no lindo distrito operário. Eram raros.

Na hora de me fazer dormir, ela me contava estórias.

Quando não falava dos homens com posturas capazes de não se subjugar aos reis poderosos, ela citava as estrelas, sim as estrelas tão numerosas nas noites nuas daquele tempo.

E assim eu adormecia.

As estrelas despertaram em mim o astronauta que nunca pude ser, tão distante seria no meu pequeno universo sonhador.

Voar para bem longe era só pura admiração.

Lembro perguntar na mesma época ao meu pai — a minha enciclopédia tão importante para o meu mundo de aprendizagem —, algo assim: “por que as estrelas estão tão distantes?”.

Prontamente, ele me respondeu com a paciência que hoje esqueci em meus ensinamentos: “porque os homens gostam de brigar. E assim, o criador resolveu colocar as estrelas longe das outras”.

Aos poucos, as estrelas foram ficando mais distantes ainda. E as minhas estrelas foram se apagando de mim, tornando-se apenas lembranças.

Mas o mundo gira e o tempo vai nos levando a querer saber do espaço sideral.

Hoje, um pouco abandonado na vida profissional, a despeito da imensa vontade de ainda voar, me dedico a assistir vídeos sobre astronomia.

Não sei se é algo natural com o passar da idade, só sei que ficava admirando Oscar Niemeyer falar dos encontros em seu escritório em Copacabana para estudarem o universo.

Talvez isso tenha me contagiado a saber de admiráveis figuras humanas, mesmo leigas, se dedicarem a conhecer um pouco desse vasto mundo que não é plano e pur se muove.

Como eu gostaria de saber do novo objeto interestelar adentrando o nosso sistema solar e sendo uma nave artificial alienígena! Basta de expectativas.

Passar pela vida sem uma oportunidade assim seria frustrante.

Ainda hoje, me sinto em mil culpas desde quando minha mãe teve uma desavença com minha tia-avó. Esta abrigou minha mãe quando ela chegou no distrito e depois minha mãe a abrigou quando ela se aposentou e ficaria sem moradia, conforme as regras das vilas operárias.

E minha tia-avó foi morar na capital, na casa de uma irmã, esta que me ensinou a torcer pelo CSA e me levava ao campo do Mutange para ver os jogos.

A saudade bateu. Minha mãe enviou recado, pedindo que minha tia-avó Teodora viesse me ver.

Talvez o orgulho das duas não permitisse acontecer em casa, mas fui levado por alguém, talvez minha irmã, a me encontrar em campo neutro com Teodora.

E lá vou eu, não mais de 5 anos, de calças curtas, me encontrar como se fosse um armistício.

Rua larga, ela vindo e eu indo. Aquela mulher densa de compreensão da vida.

Comecei a chorar de emoção.

E rapidamente me pus a enxugar minhas lágrimas machistas muitos passos antes.

Ela percebeu, me abraçou maternalmente e me perguntou com voz um pouco emotiva o que eu não gostaria que me perguntasse: “você estava chorando?”.

Imediatamente retruquei: “não”, mas era visível a mentira.

Até hoje, lamento ter negado para ela as minhas lágrimas sentidas.

Sim, eu neguei meu carinho a ela e sei o quanto ela precisava.

Ela entendeu o meu ‘não’ frágil como um sim.

Para minha imensa alegria, fizeram as pazes e voltaram a morar sob o mesmo chão até virarem brilhos no céu.

Sim, enquanto eu imaginava o quão distante estavam as estrelas, não sabia ter ao meu lado uma estrela.

Mas as estrelas se suplantaram em minha vida. Na mesma época, virei mascote de um time de futsal no mesmo distrito. Nome do time: Red Star. Uma espécie de protesto operário.

Minha função era entrar à frente do time, segurando a bola e diante da torcida adversária — a torcida toda era do Juventus —, gritar numa quadra descoberta: Estrela!

Eu já percebia a expectativa dos torcedores no meu grito infantil.

E quando eu dizia o grito de guerra, uma sonora vaia assolava a quadra esportiva.

Curiosamente eu não me intimidava.

Mesmo assim, fui mascote todo campeonato e na última partida, sentindo pena das vaias, o time resolveu que eu só deveria entrar e chutar a bola para um dos gols para desapontamento da torcida com a vaia na garganta.

Olhei o céu escuro. Uma estrela brilhava. Talvez até sorrisse.

*Foto de Marcel Savio Marino

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