Bolcheviques: a eterna jovem guarda (“Estou guardando o que há de bom… em mim…”)

Osvaldo Epifanio (Pife)

Quase todos os homens e muitas mulheres, em todos os tempos, sempre defenderam a ideia de que a felicidade é um amontoado de conquistas e de sucessos. Outrem fincam os pés, e até mesmo os dedos, naquilo que Kant chama de “ideal da imaginação instável” para definir as artérias da felicidade.

Suportável!

Alhures, sozinho com meus botões de osso e, ao longe, ouvindo minha companheira solvejando uma música de Núbia Lafayette, enquanto preparava um arrumadinho de charque, fora do barulho imaginário da cidade, numa cadeira amiga de minhas costas, aos ouvidos invadidos pelo canto mínimo e raro de um pardal buliçoso, na Santa Amélia, primeiro andar natural de Fernão-Velho, joguei meus olhos quase velhos na felicidade.

Não a vi, não a percebi, não a senti.

Foi um sopro. Um sopro daqueles dos dias de vento nordeste, insano, intruso, e que não tem respeito aos nossos cabelos, quando temos, nem muito menos à pintura do Pedro Cabral pendurada num quadro na parede vulnerável dos meus quatro cantos.

Era a felicidade.

Tenho certeza, não estou mentindo, juro por Deus. Beijo meus dedos cruzados duas vezes nos dois lados dos fura-bolos. Foi ela. Era ela, a felicidade. Tinha um olhar de soslaio e cheia de sorrisos altos.

Vocês querem uma prova?  O Epicuro.

Em sua carta a Meneceu, lendo há pouco, vi uma frase fulminante:

“A felicidade como a ausência de dor e perturbação, alcançada através da busca por prazeres simples e naturais, controlando os desejos, e o mais importante: a amizade.”

Sei que esse período composto retirado da obra do rapaz de Samos traz um particípio seguido de um gerúndio, o que deixa a citação torta e inacabada, sem um discurso articulado em sua análise (tomara que a Socorro Aguiar não me ponha de castigo). Confesso. Poderia ter feito uma referência não literal para aplainar a dor da ausência do fluxo verbal.

Mas deduzi do homem morto em Atenas no ano de 270 a.C que a porra da felicidade tem um nome do cacete: a amizade.

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