O metaverso bolsonarista
Sérgio Braga Vilas Boas
Vamos começar a nossa conversa com um entendimento básico, observando Marx, do que seria ideologia: seria a separação das ideias, das condições históricas sobre as quais são produzidas, assumindo assim um poder superior e exterior à ação material dos homens, da forma como vivem e produzem seu sustento, enfim, sua própria vida real.
O metaverso é uma espécie de ambiente virtual, em que pessoas projetam avatares de si mesmas, criando uma espécie de segunda vida ou vida virtual. Algo paralelo ou irreal, onde um ambiente, sem qualquer limite para as aspirações e noção de direito escalados em níveis estratosféricos, pode ser criado para deleite do criador, ao contrário de um mundo real, duro e cáustico, que lhe reserva o espaço da irrelevância.
Para o homem comum, ávido por se sentir vivo, notado e valorizado, é algo indescritível fugir de um ambiente onde sua opinião é irrelevante, sua vida é irrelevante, triturado por um modo de produção que suga sua alma, e migrar para outro onde sua pequenez desaparece e ele pode se colocar ao lado dos importantes. Por fim, o capital lhe presenteou com um espaço onde pode não ser ele mesmo e assim fugir da dureza que o cerca, sem precisar confrontar o próprio sistema que lhe faz pária, se esbaldando num mundo virtual sem regras ou limites.
No Facebook, Instagram, X, Snapchat, Tik Tok, se iguala a Chico Buarque, Nelson Rodrigues, Fernando Pessoa, Einstein, qualquer um. Esculacha com Lula, Macron, o Papa, etc. Imagine tal grandeza! Em quase totalidade das vezes, seus argumentos são toscos, desprovidos de lógica, baseados no senso comum, sem qualquer noção de causa e efeito ou nexo causal. Afirmam que viram cabelo de cavalo virar cobra e rato virar morcego. Rejeitam aquilo que os fazem rejeitados: o conhecimento científico que não têm. E, têm um orgulho imensurável da própria ignorância.
Mas, há algo que aparentemente desafia análises: pode o metaverso se converter em um universo? Aparentemente sim, quando a energia vital, que cria os avatares de si mesmos, projeta esses avatares em personagens da vida real, que se comportam como seus avatares, que carregam o mesmo ressentimento, a mesma falta de empatia, a mesma ignorância, a mesma carga de ódio, a mesma certeza absoluta da propriedade da verdade, a mesma presunção, e a mesma rejeição a toda e qualquer regra de civilidade que o impeça de ser o que é, transformando a vida num “reality show” tragicômico.
Todo o governo Jair Bolsonaro foi um exemplo clássico disso, uma espécie de “case”.
Jair imitava pessoas com falta de ar, enquanto elas morriam aos montes por COVID, e ainda dizia que não era coveiro.
Jair vociferava diante do seu séquito, feito uma espécie de super-homem que faria todos tremerem de medo diante dele, desafiando juízes, leis e o que mais pudesse aparecer, o defensor da família, da moral e dos bons costumes. Terminou feito uma marmota assustada diante do juiz que esculachara, pedindo desculpas e o convidando para ser seu vice na próxima eleição, da qual está alijado. Ali apareceu o Jair real. Um borra-botas falastrão, boquirroto e covarde. Sobre sua construção familiar, me recuso a falar, seria um escárnio.
A caixa preta do BNDES, que em seu governo pagou R$ 50 milhões para uma auditoria estrangeira provar a existência, deu com os burros n’água, provando o contrário. O dinheiro do mesmo BNDES “dado” a Cuba, Angola e Venezuela, países inadimplentes, na verdade são empréstimos a empresas brasileiras por exportação de serviços para quinze países e que geraram lucro de R$ 2,3 bilhões.
A Lei Rouanet, um estandarte da sua guerra cultural, na verdade é uma Lei de 1991, criada ainda no governo Collor, de incentivo à cultura através de créditos fiscais às empresas que financiam projetos culturais, cuja fiscalização é feita pelo Ministério da Cultura. Segundo estudos da Fundação Getúlio Vargas, cada R$ 1,00 investido gera um retorno para a sociedade de R$ 1,59. Mas eles persistem no “reality show” da caixa preta, e da mamata de Lei Rouanet.
Seu séquito de deputados federais e senadores, criaturas sombrias, que esbravejam, gritam e despejam uma ignorância orgulhosa, tem sido sistematicamente achincalhado por ministros do governo em audiências na Câmara dos Deputados e Senado, e em CPI’s convocadas por eles mesmos, com documentos e números que atestam a vida real diante das provocações lançadas para gerarem vídeos editados a serem apresentados nas redes sociais. O maior exemplo disso é a atual CPMI do INSS. Trágico!
E, por fim, ainda há os discursos que à primeira vista parecem em defesa do trabalhador, coitado, massacrado por impostos, como o caso da fiscalização das Fintechs, que contou com radical oposição do dep. Nikolas Ferreira, cuja investigação da Polícia Federal, Fazenda Federal e Estaduais provou ser uma opção do PCC com nada menos que 42 fundos de investimento administrados por estas empresas, organizadas para lavarem dinheiro do crime organizado. Bilhões de reais em jogo.
Poderia escrever 200 laudas sobre isso, mas vou parar por aqui.
E o Meta/Universo bolsonarista continua, menor é certo, entre mamadeiras de piroca, Kits Gay, Kits de vibradores para crianças, rezas para pneus, tentativas de contato com OVNIS através de celulares e cortes trágicos de uma “realidade” metafísica que só eles enxergam.