O Bobo Trapalhão

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Ora, meu amigo: quem não deve não teme. O que me vem à mente são os maravilhosos filmes em seriado da minha infância, no Cine Ideal, o mais perigoso para crianças na minha época: templo de pedófilos machões de Alagoas. Fui muitas vezes com meu pai, que também era fã de Chaplin, O Gordo e o Magro, Três Patetas etc.

Era a salvação das manhãs de domingo chuvosos dos antigos invernos dos anos 50 e 60. Naquela época, a vida em geral ainda tinha risos e alegrias para todos.

Rir sempre foi o melhor remédio, segundo o mote semanal das Seleções do Reader’s Digest, a revistinha norte-americana que precedeu todas as formas de lavagem cerebral escrita e visual da apologia à terra da felicidade e da prosperidade: os Estados Unidos da América.

Foi a criação do sonho americano, forjado a ouro, ferrovias, cinema e revistas em quadrinhos de eternos super-heróis, como o nosso Trump, por exemplo.

Toda corte tem um bobo. Aquele que avisa sobre o perigo que ronda o Reino, com os ouvidos da traição ativados para saber tudo o que se passa. O maior prazer do Bobo é trair e rir dos que dele riem, e gozar com os pescoços decepados no machado do Poder.

Nos tempos modernos, com a profusão de cortes monárquicas e republicanas de araque no globo da morte onde nascemos todos nós, a profissão de Bobo está, ora nas mãos de um ditador sangrento, ora na Corte Suprema de uma “soi disant” democracia republicana, para entreter a plateia de ingênuos eleitores de malfeitores com pinta de benfeitores.

Afinal, nessa tal de democracia, a imagem é tudo. “O importante não é ser honesto. É parecer honesto”: assim ensinavam nas repúblicas populistas da Roma Antiga.

Cá entre nós, o Brasil é o mais especial entre todos os especiais. Aqui entregaram nas mãos dos juízes o poder supremo de libertar, prender e extorquir os que querem enriquecer sem fazer força.

Ainda bem que a pena de morte nunca foi aprovada no picadeiro do Legislativo.

O problema é que os juízes supremos se reúnem em “Cortes” e, como vimos, toda Corte precisa de um bobo para dar a cara à tapa.

E só pode dar a cara à tapa com a frase máxima de Marco Aurélio, jurista e filósofo, de que processo não tem capa. Pode ser do Zé Ninguém ou do Banco Master: processo não tem capa, mas sim conteúdo.

Aí entra o bobo na história. Se tem conteúdo no processo, determino o sigilo, lacração e guarda e dou-me o direito sobrenatural de indicar os meus peritos favoritos para analisar o conteúdo e, claro, libertar o meu amigo e protetor.

Nunca se riu tanto nesse país divertido às vésperas do seu fantástico Carnaval.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *