O sexo sob a língua

Osvaldo Epifanio, o Pife

Tinha todos os dons sexuais.

Como no ano passado não tinha morrido de tristeza, tentou um sofrimento novo, sem as lágrimas de outrora, numa péssima segunda-feira. Não saberia e nem queria mais conviver com as velhas dores. Não morreu, apesar.

Assim, vendo que poderia mudar com toda razão sua quase divina dita da vida, resolveu fazer de suas passadas seguintes um percurso que tivera desejado. Mas o medo sempre tinha atormentado sua coragem por sempre. Pensava, agora, que teria pressa bem lenta de fazer valer seu sonho: lamber a pele deitada de um corpo nu.

Tinha tara por isso. Era como se andasse um caminho errático, como se talvez morresse ainda jovem de tanto passar a língua na derme alheia imaginária.

Não amava. Queria ser um animal malvado, sob a violência solitária da noite, às escuras, sem ter o perdão dos justos. Desejava a espessura de uma língua que fizesse, comovida, uma depravada caminhada pelos anjos santos do gozo incontido, de outrem.

Chegou até a abrir os braços diante de sua perversa juventude numa manhã de outono, acreditando que jamais morreria de morte, torto, sem resto.

Se se perguntasse por que teria resolvido sério escolher a lambida perigosa nas ruas devassas das pernas e mãos escolhidas, não saberia responder a si. Apenas teria certeza de que esse canto era como uma faca a cortar a pele de um inocente. Sua língua era cortante, afiada e ligeira. Sabia disso, nas pressas dos seus passos, e não se importava em dilacerar em arrepios suas vítimas.

Era de uma violência incontível quando, ao som de estalos da língua, raspava o rosto estacionado em seus lábios, imaginava.

Sua alma era indecente, vil e gostosamente desprezível, como uma savana de muco escorrido pela boca inquieta, pelo lado esquerdo espumado, tentando ser flácido.

Se tivesse ouvido um tango argentino no momento em que fazia sexo com a língua nervosa, certamente teria pedido na rádio um blues de Riley Ben King, tamanha sua devoção pelo gozo.

Sim, gozava com a língua, porque na profundidade do seu amor era colada a mais sublime das liberdades humanas: “Dane-se, você não tem nada a ver com o que eu quero”.

Ránili, Ranieli, Ranili nunca se assombrava com o próprio fantasma do tesão escondido em sua alma, mas não chegara a encarar, de vez e de olhos fixos, o medo. Mas sua boca era uma adaga e isso era tudo.

Como disse, ano passado teria morrido de tristeza, não fosse a gargalhada na cara do lugar das agruras.

Cuspiu no nariz de tantos, como se tivesse bebido conhaque, segurando pela primeira vez a indecência pura. Seus olhos e sua língua eram como dunas andantes. Ninguém segurava seus movimentos de rebeldia, até que alguém parasse seu desespero pela lambida, à sorte, em seus mundos gris.

Agora, tinha certeza de que poderia passar devagarinho a língua, ao sabor da saliva, sobre o cheiro de uma pele suada e arrependida pelo trago dos pecados.

Ránili, Ranieli, Ranili.

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