Lula na Ásia: Índia, primeira parada (II)

Fausto Godoy

(relevem os amigos o texto às vezes maçante, mas necessário…)

A visita oficial do Presidente Lula à Índia, para mim entre as mais importantes do seu terceiro governo, continua reverberando na imprensa indiana e internacional. Entretanto, ela passou praticamente ignorada da grande mídia brasileira, o que revela o alheamento dos nossos formadores de opinião com relação à Ásia, e à Índia, em particular. No exterior, ao contrário, analistas e acadêmicos têm-se debruçado sobre as consequências da aproximação entre parceiros do porte de Brasil e Índia, sobretudo devido ao fato de que não há, malgrado o distanciamento histórico, o hiato que se verifica com as realidades dos Estados Unidos, Europa, ou até mesmo a China: ou seja, o espaço para sinergias é mais equilibrado.

Como mencionei na postagem anterior, foi impressionante tanto o número quanto o nível das autoridades – onze ministros de Estado – e centenas de empresários que acompanharam o presidente, numa revigorante demonstração do crescente interesse de nossa parte de, enfim, enfrentar o desafio que a “misteriosa e exótica” Índia alimenta na imaginação dos brasileiros e abrir um novo capítulo num relacionamento mutuamente profícuo… Da mesma forma, pelo que pude acompanhar na imprensa indiana, este entusiasmo foi reciprocado pelos anfitriões.

Comecemos pela “química” entre Lula e o Primeiro Ministro Narendra Modi, que aparentemente foi real, pelo que foi possível notar. Foi neste contexto alvissareiro que se negociaram e se assinaram oito documentos. Entre estes, cabe destaque para o memorando de entendimentos sobre as terras raras, que foi o primeiro acordo assinado pelo Brasil nesta área, e ocorreu no momento em que Estados Unidos e China disputam acesso ao segundo maior estoque das reservas mundiais que, como sabemos, está no nosso solo. O documento prevê a cooperação técnica e científica para a troca de experiências e expertises sobre os processos que cada país está desenvolvendo na sua cadeia de minerais críticos.

Não menos importante, foi lançada a “Parceria Digital para o Futuro”, de grande importância para nós, em vista da expertise da Índia na área da tecnologia da informação. O documento prevê a cooperação em setores críticos, incluindo infraestruturas públicas digitais, com ênfase no uso da Inteligência Artificial/IA. Nesta questão o foco recai no desenvolvimento de modelos de linguagem e projetos conjuntos para a formatação de parâmetros regulatórios visando a proteção de dados e o combate à pirataria, rampante nesta área.

Na esfera comercial, as duas partes coincidiram em elevar o comércio bilateral dos cerca de US$ 15 bilhões, em 2025, para a casa dos US$ 30 bilhões até 2030. A este respeito, foi notório o entusiasmo dos nossos empresários nos contatos que mantiveram com seus parceiros indianos, tanto no fórum empresarial organizado para a ocasião quanto nos encontros paralelos. Como fruto já concreto cabe anotar a parceria que a Embraer e a Adani Defense & Aerospace firmaram para construir a linha de montagem final das aeronaves E175 na Índia. Como sabemos, o país é um dos mais importantes mercados no setor da aviação comercial e possui mão-de-obra muito capacitada. Houve acordo, ainda, quanto à necessidade de se dar adequado encaminhamento às questões relativas a medidas antidumping e aos direitos compensatórios, a fim de aumentar e estimular a confiança das comunidades empresariais de ambos países.

Como eu havia mencionado na postagem anterior, além da visita bilateral, Lula participou juntamente com a delegação brasileira do fórum organizado pelo governo indiano para tratar da questão cada vez mais premente da regulamentação internacional para a Inteligência Artificial/IA. Para o evento foram convidados líderes políticos e empresariais de vários países. O Presidente Emanuel Macron compareceu, além de importantes empresários ligados ao setor, entre eles os CEOs de “big techs”, como Sam Altman, da Open AI, e Sundar Pichai, do Google.

Do documento final – “AI Impact Summit Declaration” – consta o enunciado de que “o advento da Inteligência Artificial marcou um ponto de inflexão na trajetória da evolução tecnológica”. Desta forma, “as escolhas que se fizerem hoje moldarão o mundo que as futuras gerações herdarão”. Neste contexto, continua o documento, “em complementariedade às iniciativas internacionais já existentes, nós nos esforçaremos para avançar o compartilhamento dos conhecimentos adquiridos, ao tempo em que respeitaremos as soberanias nacionais, e nos empenharemos para que a IA possa servir à humanidade”. Entre os caminhos mapeados constam: acessibilidade das conexões de IA para todos; o estabelecimento e o fortalecimento dos ecossistemas de IA; apoio às inovações e acesso às fontes da IA que respeitem as legislações nacionais; capacitação e desenvolvimento dos recursos humanos; e o desenvolvimento de sistemas de IA que sejam eficientes no consumo de energia. (https://www.mea.gov.in/bilateral-documents.htm?dtl/40809).

Além de nós, governo e empresas, oitenta e oito países de todos os continentes assinaram a declaração, conscientes da necessidade de se regulamentar o futuro da Inteligência Artificial pelas implicações que ela já vem demonstrando na convivência entre pessoas e entidades públicas… Conspicuamente, o governo americano se recusou a participar do evento…

De Nova Delhi, o Presidente Lula e comitiva partiram ontem, 22/02, para Seul, a última etapa deste périplo. Não poderia ter sido mais oportuna a escolha do roteiro.

To be continued…

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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