Marx, pobres e a taxação dos mais ricos

Edberto Ticianeli
jornalista

E de repente a esquerda brasileira redescobre que a contradição entre pobres e ricos tem poder mobilizador e amplitude superior a qualquer outra causa social. Karl Marx, no século XIX, já tinha chegado a essa mesma conclusão.

A constatação dessa retomada se dá pela mobilização que acontece nas redes sociais contra os parlamentares que tentam impedir a taxação dos mais ricos por parte do governo brasileiro. A desigualdade crescente faz despertar, de vez em quando, até o senso crítico mais anestesiado, provocando reflexões sobre o mundo em que vivemos e as projeções para o seu futuro.

Espera-se que alguns destes insatisfeitos queiram entender mais profundamente a origem dos conflitos sociais e visitem o velho Marx. Ele está lá, disponível em uma estante de livros — ou na internet —, a nos dizer que a desigualdade não é uma punição divina ou resultado da falta de sorte de alguns, mas decorrência das estruturas econômicas das sociedades.

Se der trela ao velho revolucionário, ele explicará que a história de todas as sociedades até os nossos dias é a história da luta de classes, da oposição entre os que possuem os meios de produção e os despossuídos deles. Vai citar alguns exemplos, dizendo que isso acontecia na Roma antiga, entre patrícios e plebeus, ou na Idade Média, entre senhores feudais e servos.

No capitalismo moderno, dirá ele, essa contradição se dá entre burgueses e proletários. Os primeiros como proprietários dos meios de produção, os segundos apenas vendendo sua força de trabalho. Vai falar de uma tal de mais-valia, o trabalho não pago que falsamente aparece como lucro, revelando como se realiza a apropriação do trabalho, base fundante do capitalismo.

Mas o trabalhador não percebe a exploração dessa forma. Para ele, ser explorado é ganhar pouco, lhe deixando somente em condições de sobreviver. Entretanto, vez por outra, é capaz de perceber que há injustiça nessa relação e que há inaceitáveis privilégios para os ricos.

Marx refuta a possibilidade da existência de um capitalismo bonzinho, melhorado, mais humano e justo, proposto pelos atuais sociais-democratas. O pensador alemão enxerga como irreconciliável a contradição existente entre os que produzem e os proprietários dos meios de produção, e que seria inevitável uma ruptura desse sistema e o surgimento de uma sociedade socialista.

É correto constatar que as mudanças operadas nos meios de produção e na forma de exploração alteraram profundamente o capitalismo a partir do final do século XX, mas as desigualdades, teimosamente, continuam a existir. Os poucos bilionários sobrevoam as periferias das cidades sabendo que ali tem gente que mal satisfaz suas necessidades básicas, vítima do desemprego ou da precarização do trabalho.

As riquezas conquistadas com avanços tecnológicos, permanecem nas mãos de poucos, aprofundando a desigualdade. O capital não quer o bem-estar social. Aos trabalhadores, principalmente os mais conscientes dessa situação, cabe a elaboração dos novos caminhos a serem trilhados na luta para se pôr fim a essa exploração.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

2 comentários em “Marx, pobres e a taxação dos mais ricos

  • 9 de julho de 2025 em 13:38
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    Brilhante!
    Seu estilo e capacidade de síntese não me permitem deixar de ler tudo que ele escreve.

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  • 11 de julho de 2025 em 05:53
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    Oportuno seu comentário sobre a descoberta ou redescoberta de Marx pela esquerda, no ambiente altamente censurado da Internet, o que faz extrapolar para os mais jovens fundamentos de conceitos marxistas, anteriormente repudiados dentro da própria esquerda e execrados pela direita.
    Resta saber se esse debate terá consistência para o renascer da esquerda entre as bases sociais e trabalhistas com repercussões nos poderes da República, ou se se é penas um fogo de papel.

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