O Agente Secreto

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Por mais de 120 anos, o cinema entregou ao mundo obras de arte inesquecíveis. Houve períodos de safra e de entressafra. A segunda metade do século XX foi uma das maiores e melhores safras da produção cinematográfica mundial, quando também entrou em cena o cinema latino-americano, asiático, africano, iraniano e brasileiro.

A produção do cinema periférico oscilava entre valores e recursos estéticos norte-americanos e europeus. O Brasil e o México foram casos à parte, ao conseguirem criar e estabelecer seus padrões, que alcançaram sucesso em suas fronteiras por quase quarenta anos, contribuindo para a formação cultural de três gerações.

Durante a ditadura militar brasileira, com jornais, revistas, livros, teatro e cinema sob censura, esses segmentos foram obrigados a escolher caminhos de salvação e permanência. No caso do cinema, brilhou a Pornochanchada, de grande apelo popular. Também tiveram boas performances o Cinema de Arte, voltado a um público menor e mais interessado em qualidade e conteúdo cinematográfico, e o Cinema Experimental, que se colocou como uma vanguarda “cabeça” e rica em criatividade, mas pobre em recursos. Glauber e Sganzerla surgiram sob a mira da censura e dos fuzis e trouxeram à luz uma espécie de cinema diferenciado pelo caos autoral de cada um no cinema novo com uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e um público reduzido de fiéis seguidores do chamado Cinema de Arte. Dessa época restou Deus e o Diabo na Terra do Sol e o Bandido da Luz Vermelha como marcos de uma geração que já se foi.

Esse primeiro lampejo de filmes autorais e artesanais na produção concorreu para o surgimento de um grupo de realizadores enquadrados na tentativa de recriar um cinema popular de qualidade, com conteúdo. Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos e mais uma dezena de cineastas conseguiram chegar a estabelecer um novo cinema, com começo, meio e fim do relato cinematográfico. Chegaram à maestria das grandes produções internacionais com Walter Salles.

Com toda essa história embrulhada e arquivada em nossas cinematecas, faltava passar tudo no liquidificador e produzir um cinema de síntese nacional, com relevância mundial na forma e no conteúdo, par a par com o que há de melhor na sétima arte do planeta.

Chegou Kleber Mendonça Filho com O Som ao Redor, Aquarius e um documentário em 2023, Retratos Fantasmas, sobre a cidade do Recife e seus cinemas. Agora, com a primeira grande obra de arte do novíssimo cinema brasileiro, é reconhecido mundialmente como o melhor e mais importante cineasta do Brasil neste primeiro quarto do século XXI.

Um cineasta que respira, dorme, almoça, janta, digere e cria cinema aproveitando todas as possibilidades já testadas e também as não testadas na arte cinematográfica.

Um salpicão de fotografias, planos, enquadramentos, músicas precisas, naturalidade de atuações fantasmagóricas, ambientação, realismo, sangue, suor, carnavais e cerveja.

Tem como convidados, na sua alta costura revolucionária, Almodóvar, Fellini, Godard, Hitchcock, Dalí, Bertolucci, Nelson Pereira dos Santos, Wagner Moura, Tânia Maria, a interessante e bizarra polícia civil nordestina, altamente rigorosa e exigente em busca de um trocado ou de qualquer coisa pra fumar e comer; e ainda tem os sonhos de criança com Hollywood e seus tubarões.

Também mistura o sonho com o tubarão e a perna cabeluda decepada pela espada da ditadura, dançado entre Pasolini e Gullermo Del Toro na devassidão noturna das ruas e parques da Princesa do Capibaribe, com suas famintas capivaras.

Cannes já viu e gostou. Espero que Hollywood reserve alguns Oscar para essa equipe da pesada, liderada pela dupla Kleber Mendonça e Wagner Moura. Sem deixar de falar em dona Sebastiana.

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