Carlos Bezerra Jr.: “Falar ‘todes’ não reduziu violência e não diminuiu preconceito”
Carlos Bezerra Jr.*
O governo sancionou uma lei proibindo linguagem neutra nas comunicações oficiais e muita gente ficou surpresa. Antes que isso vire guerra de meme e ideologia, vamos falar do que realmente importa: pessoas reais, dor real, vida real. É isso que importa.
A lei diz que daqui para frente o governo só pode usar o português padrão, nada de “todes”, de “todxs”, de “elu”. É comunicação simples, direta, acessível para todo cidadão. Goste ou não, existe uma lógica nisso, porque comunicação pública não pode virar código de tribo, não pode virar dialeto de militância. O Estado fala com o Brasil inteiro, do servidor ao morador de rua, da D. Maria no Posto de Saúde ao jovem da “quebrada“, que só quer entender seu direito. Se o povo não entende, o Estado brasileiro falhou.
A intenção da linguagem neutra era legítima, era sobre acolher, sobre tentar enxergar quem não se reconhece no masculino ou no feminino. A busca por respeito é justa. Mas a estratégia não funcionou. Falar “todes” não reduziu violência, não diminuiu preconceito, não abriu portas, não evitou agressão, não garantiu direito mínimo. Pior: gerou rejeição, criou barreira, virou piada, virou munição. Isolou mais do que aproximou, dividiu mais do que protegeu. Quando uma tentativa de inclusão produz mais hostilidade que acolhimento, é preciso honestidade para reconhecer que ela não cumpriu o que prometeu.
A justificativa do governo é clara: o Brasil precisa de comunicação compreensível. Nós convivemos com realidades muito diferentes, tem gente com baixa escolaridade, gente sem acesso a esses debates identitários, gente lutando para sobreviver, gente que precisa do Estado para resolver a vida, não para decifrar vocabulário.
Faz sentido. O Estado não pode adotar linguagem de grupo acadêmico, nem de grupo religioso, nem de grupo político, nem de nicho nenhum. A língua oficial precisa ser universal, porque a vida real exige clareza. Mas aqui entra a percepção crítica que ninguém quer tocar: se o governo tem força para proibir palavras, precisa ter força para proteger pessoas. Proibir “todes” é simples; difícil é reduzir assassinatos de pessoas trans; difícil é garantir emprego, saúde, proteção, dignidade; difícil é enfrentar a violência que acontece fora da internet, porque respeito não nasce de vogal, respeito nasce de política pública. Trocar sílaba não muda a vida de quem sofre violência, trocar letra não interrompe discriminação, trocar plural não devolve dignidade para quem vive sendo negado. O que muda a vida é presença, é proteção, Estado funcionando, é política pública real, que chega na ponta.
Se a linguagem neutra não aproximou, afastou; se não incluiu, dividiu; se não explicou, confundiu. Era questão de tempo até isso acontecer. O Brasil não precisa reinventar palavras; precisa reinventar respeito, respeito real, na vida real.
Que a comunicação pública seja clara, que o compromisso com a dignidade humana seja firme, porque mudar sílabas é fácil, difícil é mudar práticas, proteger vidas, garantir direitos, e é isso que importa, que salva, que constrói o país que a gente quer ver. O resto é debate ideológico, infrutífero para a maioria da população.
***
Retirado do vídeo https://www.instagram.com/reel/DRN0Fi1gTJX/?igsh=bWxmYWtydXY3cDhs.
* Carlos Alberto Quadros de Bezerra Júnior (São Paulo, 13 de abril de 1968), mais conhecido como Carlos Bezerra Júnior, é um médico, pastor e político brasileiro, filiado ao Partido Social Democrático (PSD).
Atualmente é vereador do município de São Paulo pela quarta vez e já ocupou o 1º lugar no ranking dos vereadores de São Paulo mais bem avaliados pelo levantamento da ONG Voto Consciente, que monitora o desempenho dos parlamentares paulistanos. Foi deputado estadual pelo Estado de São Paulo entre 2011 e 2018. Em 2019 foi secretário do Esporte e Lazer na cidade de São Paulo, deixou o cargo no início de 2020 para trabalhar na candidatura a vereador de São Paulo.
Ele é autor da Lei paulista de Combate ao Trabalho Escravo, considerada pela ONU um modelo de combate à escravidão contemporânea e pelo Ministério Público do Trabalho um avanço para o Brasil.
O deputado, apesar de evangélico, é crítico da bancada evangélica.[10] O parlamentar questionou posturas das chamadas “bancadas evangélica e ruralista”, em texto publicado em maio de 2015.[11]
Bezerra Jr. é o idealizador do USINA21 – Jovens, Ideias e Transformação Social, um dos principais eventos voltados à juventude evangélica no país, que ocorre anualmente e discute a participação dos jovens na sociedade.