A inconsciência negra no Dia da Consciência

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Não tenho lugar de fala, mas tenho lugar de vida. Desde a infância convivi na intimidade da amizade pura e real com amigos negros inesquecíveis.

Também por acaso vivi em uma área geográfica da cidade de Maceió, o bairro alto do Farol, onde viveram, e talvez ainda vivam, os descendentes de várias famílias negras da classe média, incluídas com naturalidade no meio ambiente social pelo notório saber e participação na vida pública, a maioria reconhecidos mestres do ensino e da educação.

Mas nem tudo eram flores. Descobri o racismo, que hoje chamam de estrutural, por volta dos meus 16 anos, quando fomos em grupo a um famoso baile de Carnaval no Iate Clube Pajussara, na então badalada praia dos Sete Coqueiros: um dos nossos amigos era um dos primeiros estudantes da Faculdade de Medicina de Alagoas.

Pessoa extraordinária como ser humano e intelectual, foi o único a ser barrado no baile pelo próprio Comodoro do Iate Clube Pajussara, um cubano branco e já integrado à High Society de Maceió, refugiado da Revolução Cubana.

Para mim aquilo foi um choque de realidade e ruído de heavy metal no silencioso racismo, que toda a sociedade alagoana tentava negar com as frequentes comparações entre os cruéis sistemas de apartheid dos Estados Unidos e da África do Sul e o nosso “bondoso” faz de conta da convivência humana da Casa Grande e Senzala, provado nos palcos pelas famosas mulatas do Sargentelli, de fama mundial.

Aos 22 anos, já diplomata de carreira, por escolha própria e paixão atávica pelos tambores do Xangô, que povoaram a imaginação da minha infância, nos ventos suaves das noites estreladas do Farol, quis ir viver na raiz da nossa cultura mais profunda e resistente; a africana.

Lá havia grande afeto e admiração pelo Brasil, conhecido por suas personalidades negras vitoriosas mundialmente, especificamente Pelé.

Em pleno milagre econômico da bela Costa do Marfim, ex-colônia francesa e com apenas 16 anos de independência, fomos escolhidos para desenvolver diversos projetos agrícolas tropicais — principalmente soja—, por decisão governamental.

Inaugurou-se então, na capital Abidjan, a quinquagésima agência do Banco do Brasil, com uma semana de festival cultural e festas, além dos convidados de toda a África Ocidental. Já estava lá o extinto Banco Real, que decidiu pela abertura de duas agências no país, que era o primeiro produtor mundial de cacau e terceiro de café.

Recebi em meu apartamento diversos funcionários desses bancos para confraternizações e assim fiz amizade com funcionário graduado do Banco Real, negro e jovem. Com poucas semanas na cidade, havia entrado em depressão porque jamais havia vivido em uma cidade de maioria absoluta negra e uma elite local rica e poderosa.

Confessou que ainda tinha medo da maioria pobre, porque estava acostumado, psicologicamente, com a identificação de negros pobres e criminalidade no Brasil.

E assim sucediam-se os casamentos de celebridades negras brasileiras, principalmente com brancas e loiras.

Quando li pela primeira vez o livro que toda a negritude brasileira deveria conhecer, “Pele Negra, Máscaras Brancas“, escrito pelo mentor da luta negra pela independência das colônias africanas europeias, Franz Fannon, cidadão negro da Martinica, território ultramarino da França e, portanto, francês, compreendi que além de barreiras sociais e culturais, a negritude enfrentava o pior dos seus demônios; o auto infligido complexo de inferioridade gerado pela escravização e pelo colonialismo.

A baixa estima que historicamente criou raízes no inconsciente coletivo dos africanos em sua própria terra e nos transplantados para a Europa, Américas e Caribe.

Franz Fannon foi um psiquiatra renomado em Paris e decidiu lutar pela independência africana. Participou na linha de frente da independência d’Argélia, a mais violenta de todas as guerras de independência. Morreu aos 31 anos de idade e até hoje é considerado o precursor de todos os movimentos de libertação da negritude no mundo.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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