A história não se repete?

Edberto Ticianeli, com I. A.

A história não se repete de forma idêntica, mas frequentemente rima. Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, grande parte da Europa adotou uma política de apaziguamento diante do nazismo liderado por Adolf Hitler. Líderes europeus, traumatizados pela Primeira Guerra, preferiram ceder territórios e ignorar violações de tratados na esperança de preservar a paz. Havia também um cálculo político: muitos acreditavam — ou desejavam acreditar — que a agressividade nazista acabaria se voltando principalmente contra a União Soviética. Para setores conservadores do continente, o comunismo era visto como uma ameaça maior que o próprio nazismo, e a ideia de que Hitler destruiria o regime soviético parecia, em silêncio, conveniente.

Essa aposta revelou-se trágica. Ao tolerar a remilitarização da Renânia, a anexação da Áustria e a ocupação da Tchecoslováquia, a Europa fortaleceu o agressor que depois se voltaria contra todos. Quando a guerra finalmente explodiu, já era tarde para contê-la com facilidade. O cálculo estratégico, misturado ao medo e à ilusão, custou dezenas de milhões de vidas.

Hoje, guardadas as enormes diferenças históricas, a Europa volta a viver um momento de inquietação. A ameaça não vem de tanques cruzando fronteiras, mas da instabilidade política e estratégica gerada por Donald Trump e pelo novo isolacionismo americano. Durante sua presidência — e agora, com sua volta ao centro do poder político dos EUA — Trump questionou alianças históricas, relativizou a OTAN, tratou a defesa europeia como um fardo e demonstrou admiração por líderes autoritários. Para um continente que construiu sua segurança sob o guarda-chuva norte-americano desde 1945, essa postura soa como um terremoto geopolítico.

Assim como nos anos 1930, parte da Europa parece hesitar entre reagir com firmeza ou esperar que a tempestade passe. Há quem aposte que os EUA, mesmo sob Trump, não abandonará seus compromissos. Outros acreditam que os conflitos estratégicos se concentrarão em rivais como a China, deixando a Europa em segundo plano. Mas a lição histórica é clara: confiar que forças disruptivas se direcionarão para “outros alvos” costuma ser um erro perigoso.

Antes da Segunda Guerra, o medo de agir fortaleceu o agressor. Hoje, a dependência excessiva e a falta de autonomia estratégica podem deixar o continente europeu vulnerável em um mundo cada vez mais instável. A comparação não é sobre igualar Hitler a Trump em termos morais ou históricos, mas sobre reconhecer um padrão recorrente: quando democracias apostam na complacência diante de líderes imprevisíveis, o preço costuma ser alto.

Se os anos 1930 ensinaram algo à Europa, foi que a segurança não se constrói com esperança ingênua, mas com preparo, união e coragem política. O desafio atual é aprender com o passado antes que a história, mais uma vez, cobre seu tributo.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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