La mer (Amar ao Mar)
Miguel Gustavo de Paiva Torres
Azul da cor do mar saindo da garganta de Tim Maia como uma faca de luz cortando o cérebro. La mer. A mar. Feminina como só ela é na língua francesa. A língua do amar, do amor e do mar.
Verde da cor do oceano de luzes candentes do arco-íris iluminando as sarjetas e os esgotos a céu aberto do meu lindo Nordeste caribenho. Pobre como o Caribe. Lindo como o Caribe. O mar; il mare, el mar. Masculinos na península ibérica e na bota italiana. Não. O mar é feminino. Pelo menos na Itália ainda se diz “al mare”, trans substanciando o masculino em feminino.
Palavra mágica: Caribe. Salta aos olhos surfando ao vento; mergulhando nas pedras das estrelas-marinhas, com os pés na areia, pisando em algas verdes. Verdes da cor do mar, como o azul que vem primeiro e o furta-cor que vem depois.
O mar. Masculino na Itália do Tirreno e do Mediterrâneo, às vezes rosado no amanhecer e púrpura antes da lua de neve subir no horizonte.
La mer; sim, é uma mulher. Não poderia deixar de ser: suave e amorosa em dias claros à beira-mar; violenta e furiosa nas tempestades, revoltosa nas águas traiçoeiras que atravessam nossas vidas.
Tomara que não chova amanhã. Cristalina manhã azul, verde e vermelha no pôr do sol e na chegada da lua.
Der Mond. O lua, em alemão. Nada mais transparente do que a linguagem da alma. Como podem transformar a lua em o lua na terra das Valquírias encantadas de Wagner, pleno de ressonâncias e dissonâncias da agonia do viver.
Viver como um polvo agarrado em arrecifes e esponjas mortas no fundo das águas mais profundas dos oceanos sem cor, sem vida, sem luz, sem amor.
Sobreviver ao luar, à beira-mar, na Bahia ou no Caribe, com uma saudade índica do Mediterrâneo e do Mar Negro. A mar. Para sempre amar. Al mare.