A direita além do bolsonarismo
Edberto Ticianeli
Com IA
Uma parcela do eleitorado conservador começa a mostrar que ser de direita não significa necessariamente permanecer subordinado ao bolsonarismo. Essa distinção pode ganhar importância quando o eleitor se vê obrigado a escolher não apenas entre esquerda e direita, mas entre diferentes formas de exercício do poder.
Durante alguns anos, o bolsonarismo conseguiu produzir uma identificação quase automática entre direita e apoio à família Bolsonaro. Conservadorismo, liberalismo econômico, antipetismo e bolsonarismo passaram muitas vezes a ser tratados como se fossem uma coisa só.
Não são.
Levantamento divulgado em março de 2026 encontrou 20% dos entrevistados identificados como integrantes de uma “direita não bolsonarista”, contra 12% classificados como “direita bolsonarista”. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que boa parte desse eleitorado ainda pode votar em candidatos ligados a Bolsonaro.
Os números, portanto, não indicam um rompimento generalizado, mas revelam algo importante: existe uma direita socialmente expressiva que não se confunde necessariamente com um líder, uma família ou um partido.
É nesse espaço que começa uma disputa política relevante.
Parte desse eleitorado continua conservadora nos costumes, crítica ao PT, favorável a políticas mais duras de segurança pública ou identificada com princípios econômicos liberais. Nada disso, entretanto, obriga esse eleitor a aceitar todas as práticas e estratégias daqueles que reivindicam representar a direita.
É possível ser conservador e rejeitar aventuras institucionais. Ser liberal e desconfiar do personalismo. Ser antipetista sem conceder fidelidade permanente a qualquer liderança.
Essa separação abre espaço para novas referências políticas — governadores, parlamentares, intelectuais, empresários ou novos partidos capazes de disputar um eleitor que pretende conservar suas posições sem acompanhar a radicalização.
E pode produzir um fenômeno aparentemente contraditório: o voto circunstancial no adversário.
Um eleitor de direita pode, em determinadas condições, votar num candidato de centro ou mesmo de esquerda sem ter mudado de posição ideológica. Pode simplesmente considerar que derrotar determinado projeto político é, naquele momento, mais importante do que escolher o candidato ideologicamente mais próximo.
É o chamado voto negativo: escolhe-se menos pelo entusiasmo com uma candidatura e mais pela rejeição à outra.
Pesquisa Datafolha de julho identificou 24% do eleitorado como não alinhado nem ao petismo nem ao bolsonarismo. Numa simulação de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, 40% desse grupo declaravam voto em Lula e 31% em Flávio.
Isso não transforma automaticamente esses eleitores em lulistas, assim como votar em Bolsonaro para derrotar o PT não tornou necessariamente todos os seus eleitores bolsonaristas.
A direita dificilmente desaparecerá com o enfraquecimento de qualquer liderança específica. A questão é outra: quem representará essa direita e de que maneira?
Se parte dos conservadores concluir que radicalização permanente, conflitos institucionais e fidelidade pessoal não correspondem mais aos seus interesses, poderá procurar novas lideranças — e, em determinadas eleições, até votar fora da direita para derrotar uma candidatura que rejeite.
Não seria necessariamente uma conversão ideológica.
Seria apenas a demonstração de uma regra elementar da democracia: princípios podem permanecer; líderes são substituíveis.