Quando as máquinas trabalharem por nós: da Inteligência Capitalista à Inteligência Socializada

Edberto Ticianeli, com IA

A história da humanidade pode ser contada de muitas maneiras. Uma delas é acompanhar a longa e obstinada luta do ser humano contra o esforço. Desde que descobriu que carregar uma pedra nas costas era cansativo, o homem passou a dedicar parte considerável de sua inteligência a encontrar uma maneira de fazer com que outra coisa — ou, infelizmente, outra pessoa — carregasse a pedra por ele.

Foi assim que, em algum momento remoto, alguém percebeu que um tronco colocado sob um bloco pesado facilitava seu deslocamento. Outros troncos foram acrescentados, a experiência foi aperfeiçoada e, depois de muitas pedras roladas, chegamos à roda. Pode não ter sido exatamente assim, de forma tão linear, mas a imagem resume bem uma das maiores aventuras tecnológicas da humanidade: fazer as coisas se moverem com menos suor.

A roda foi melhorando, ganhou eixos, raios, aros, pneus, rolamentos e motores. Terminou levando o homem a velocidades que aquele primeiro carregador de pedras talvez considerasse obra de alguma divindade particularmente apressada.

Na água aconteceu algo semelhante. Primeiro, um tronco flutuando sugeriu que talvez fosse possível atravessar um rio sem nadar. Vieram as jangadas, canoas, barcos a remo, embarcações a vela, navios a vapor e, finalmente, enormes transatlânticos, capazes de transportar milhares de pessoas e toneladas de carga por oceanos inteiros. Hoje existem navios tão grandes que talvez fosse mais fácil dizer que são cidades que aprenderam a boiar.

Em terra, durante milênios, a carga viajou nas costas humanas. Depois passou para lombos de bois, cavalos, burros e camelos. Vieram carroças e carruagens; depois locomotivas, trens, bondes e caminhões. O céu, que parecia reservado aos pássaros e aos deuses, foi ocupado por aviões e helicópteros. Agora temos até drones, pequenos trabalhadores voadores que fotografam, fiscalizam plantações, fazem levantamentos e já entregam mercadorias em alguns lugares.

Ou seja: começamos carregando o pacote nas costas e estamos chegando ao ponto em que o pacote poderá voar sozinho até a casa do destinatário.

Da fofoca oral ao planeta conectado

A comunicação percorreu caminho igualmente impressionante.

Durante muito tempo, a informação dependia exclusivamente da memória e das pernas de alguém. Uma pessoa dizia alguma coisa à outra, que dizia a uma terceira, e assim nasciam simultaneamente a comunicação humana e, provavelmente, a primeira versão distorcida dos fatos.

Depois começamos a registrar informações em pedras, tábuas, papiros, pergaminhos e papéis. Surgiram cartas, documentos e livros. A humanidade descobriu uma coisa extraordinária: uma pessoa podia morrer e continuar falando por meio da escrita.

Para vencer as distâncias, utilizamos mensageiros, fogueiras, tambores, sinais e semáforos ópticos, com torres, braços mecânicos e bandeiras formando códigos visuais. Então surgiu o telégrafo, primeiro ligado por fios e depois também sem fio. A notícia passou a viajar muito mais depressa do que o homem que a produzia.

Veio o telefone, permitindo que a voz atravessasse quilômetros quase instantaneamente. Depois rádio, televisão, satélites, computadores, internet, e-mail, mensagens instantâneas, videoconferências e redes digitais.

Levamos milhares de anos para conseguir conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta. Conseguido isso, usamos parte considerável dessa extraordinária conquista tecnológica para mandar bom dia acompanhado da fotografia de uma rosa.

Mas isso também é civilização.

Do bisturi ao robô

Na medicina, o salto talvez seja ainda mais espetacular.

Durante séculos, conhecer o interior do corpo humano significava abri-lo. Hoje, raios X, ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e outros exames permitem observar órgãos, ossos, vasos e tecidos sem desmontar o paciente para descobrir o que está acontecendo.

As cirurgias também se transformaram. Grandes incisões deram lugar, em muitos procedimentos, à laparoscopia e a técnicas minimamente invasivas. Instrumentos delicados entram por pequenas aberturas, câmeras mostram ao cirurgião regiões antes inacessíveis e sistemas robóticos ampliam a precisão dos movimentos.

O paciente agradece principalmente quando chega a hora de levantar da cama.

A máquina entra na fábrica

O mesmo princípio — produzir mais com menos esforço humano — transformou o trabalho.

Durante séculos predominou a manufatura, dependente das mãos, da habilidade e da força física dos trabalhadores. A Revolução Industrial colocou máquinas onde antes havia músculos. Tear mecânico, máquina a vapor, motores e linhas de produção multiplicaram a capacidade produtiva.

A reação não foi tranquila. No início do século XIX, trabalhadores ingleses associados ao movimento que ficou conhecido como ludismo destruíram máquinas que enxergavam como ameaça aos empregos e às condições de trabalho.

Não estavam necessariamente em guerra contra a tecnologia. Estavam preocupados com uma pergunta que continua atualíssima: “se a máquina fizer o meu trabalho, de que viverei?”

Do tear mecânico chegamos às linhas automatizadas e aos robôs industriais, capazes de soldar, pintar, montar, separar e transportar peças sem reclamar da segunda-feira nem perguntar quando chega o feriado.

Agora entramos em outra etapa.

A máquina não está apenas substituindo braços. Começou a disputar tarefas com o cérebro.

Quando o cérebro ganha uma máquina

O computador já havia assumido cálculos que consumiriam horas, dias ou anos de trabalho humano. Bancos de dados passaram a guardar o que antes exigia arquivos imensos. Programas fizeram cálculos, organizaram informações, projetaram edifícios, controlaram fábricas e pilotaram máquinas.

Com a Inteligência Artificial, a fronteira avançou novamente.

Máquinas agora produzem textos, imagens, músicas e programas de computador; traduzem idiomas, analisam documentos, reconhecem padrões, auxiliam diagnósticos, resumem milhares de páginas e encontram relações em quantidades de informação impossíveis de serem examinadas individualmente por uma pessoa.

Depois de passar milênios tentando poupar as costas, os braços e as pernas, a humanidade resolveu dar algum descanso também aos neurônios.

E imediatamente surgiu o temor: “vamos emburrecer?”

Provavelmente é uma versão contemporânea do velho medo diante da máquina.

Quando o desenvolvimento tecnológico reduziu o esforço físico necessário à sobrevivência, o corpo humano não desapareceu. Criamos outras maneiras de exercitá-lo. Corremos quilômetros sem precisar fugir de nenhum predador. Levantamos pesos que não precisam ser transportados para lugar algum. Pedalamos bicicletas estacionárias que, depois de uma hora de enorme esforço, continuam rigorosamente no mesmo lugar.

Chamamos isso de esporte e exercício físico.

Com o cérebro poderá ocorrer algo semelhante.

Há séculos inventamos desafios mentais sem finalidade produtiva imediata: xadrez, jogos de estratégia, quebra-cabeças, palavras cruzadas, problemas matemáticos. E há atividades intelectuais cuja motivação dificilmente desaparecerá: estudar, investigar, pesquisar, criar hipóteses, compreender o passado, imaginar o futuro.

A curiosidade não nasceu porque alguém precisava bater ponto às oito da manhã.

Ela parece fazer parte da própria condição humana.

O verdadeiro problema não será o ócio

Por isso, talvez a questão fundamental trazida pela Inteligência Artificial não seja saber o que acontecerá quando máquinas realizarem grande parte do trabalho físico e intelectual.

A pergunta mais importante será outra: “quem ficará com a riqueza produzida por elas?”

Esse problema não é tecnológico. É político, econômico e social.

Se máquinas e sistemas inteligentes forem capazes de produzir cada vez mais bens e serviços com participação humana cada vez menor, poderemos construir uma sociedade de abundância inédita. Mas também poderemos produzir uma concentração de riqueza igualmente inédita.

Tudo dependerá de como essa produtividade será distribuída.

O desemprego tecnológico é um temor antigo. Foi sentido pelos artesãos diante das máquinas industriais, pelos trabalhadores diante das linhas de montagem e reaparece agora diante dos algoritmos. Muitas profissões desapareceram; outras nasceram. A diferença é que a Inteligência Artificial poderá acelerar e ampliar esse processo numa escala desconhecida.

Talvez, portanto, a grande invenção do século XXI não precise ser uma nova máquina.

Talvez tenha de ser uma nova organização social.

Uma sociedade capaz de compreender que, se uma máquina pode libertar uma pessoa de um trabalho exaustivo, isso deveria ser uma boa notícia — e não a sentença de que essa pessoa perdeu o direito de ter renda, moradia, alimentação, educação, lazer e dignidade.

Durante milhares de anos, usamos nossa inteligência para diminuir o sofrimento provocado pelo trabalho pesado. Seria uma ironia histórica extraordinária chegarmos finalmente às máquinas capazes de realizar boa parte desse trabalho e transformarmos a conquista em motivo de angústia para bilhões de pessoas.

O problema, nesse caso, não estaria na Inteligência Artificial.

Estaria na nossa inteligência social.

A humanidade conseguiu substituir músculos por motores, braços por máquinas, pernas por veículos e parte da memória e do cálculo por computadores. Pode também aprender a substituir modelos econômicos concebidos para sociedades de escassez e trabalho intensivo por formas de organização adequadas a sociedades altamente automatizadas.

E talvez seja essa a verdadeira passagem histórica que esteja começando.

Durante muito tempo, predominou uma espécie de “Inteligência Capitalista”, extraordinariamente eficiente para aumentar a produção, acelerar a inovação e transformar conhecimento em riqueza, mas também capaz de concentrar os benefícios dessa riqueza e converter ganhos de produtividade em desemprego e insegurança para quem vive do próprio trabalho.

A próxima etapa poderá exigir uma “Inteligência Socializada”: não a socialização obrigatória das ideias ou da criatividade humana, mas a capacidade coletiva de distribuir de maneira mais ampla os benefícios produzidos por máquinas, robôs e inteligências não humanas.

Afinal, se a “Inteligência Artificial” for realmente inteligente, talvez ajude a humanidade a perceber uma contradição bastante simples: não faz sentido inventar máquinas para libertar o homem do trabalho exaustivo e, depois, castigá-lo porque ficou sem trabalho.

Se conseguirmos resolver esse desafio, poderemos finalmente entrar numa sociedade em que seres humanos não precisem explorar o trabalho de outros seres humanos para sobreviver.

E, nesse dia, talvez possamos olhar para trás e dizer que aquela velha “Inteligência Capitalista” cumpriu seu papel histórico. Foi brilhante para ensinar as máquinas a produzir, mas agora é a vez da “Inteligência Socializada”, que revolucionariamente ensina a sociedade a repartir suas riquezas.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

Um comentário em “Quando as máquinas trabalharem por nós: da Inteligência Capitalista à Inteligência Socializada

  • 29 de agosto de 2026 em 11:32
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    Texto preciso sobre a possibilidade de inauguração de um novo tempo para as sociedades humanas com o conhecimento geral e extensivo da Inteligência Artificial. Indica caminhos que poderiam finalmente superar os modelos fracassados do capitalismo de alta concentração de renda e o socialismo imposto pela força. Resta saber como será utilizada na política, na economia , na educação e seus efeitos na realidade social global. Dá o que pensar.

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