A burguesia nacional está perdendo sua última chance de redenção

Sérgio Braga Vilas Boas

Vamos chamar aqui a burguesia nacional de “eles”, tendo plena consciência de que na verdade nunca existiu. É uma espécie de aristocracia pusilânime, de dentadura nova, pra quem o iluminismo jamais chegou ou os ventos das revoluções burguesas ocorridas na Europa entre os séculos XVII e XIX.

Essa dita burguesia faz do Brasil uma espécie de “mundo perdido”, terra de “ratanabá”, onde a Inteligência Artificial convive com pterossauros sobrevoando sobre nossas cabeças. É carcomida, reacionária e escravagista, e acima de tudo golpista. Ah, como odeiam o Brasil e adoram um golpe!

Com suas patas entranhadas no Estado desde sempre, tentam impedir, e tem conseguido, qualquer sopro de progresso. Estão nas esquinas nos espionando; no judiciário e no parlamento nos condenando e extorquindo. Luiz XIV foi menos canalha.

A República surgiu de um golpe; Getúlio golpeou e foi golpeado no seu melhor momento; Juscelino amargou cinco anos sob ameaça; Goulart sofreu golpe, Dilma também. E, por fim há uma tentativa em curso que começou em 2023. Com suas múmias, segue o sarcófago da burguesia nacional arrastando o Brasil de crise em crise, de golpe em golpe.

FHC, discordando de Celso Furtado, cria simplesmente que o Brasil não tinha uma burguesia nacional patriótica, capaz de conduzir um processo de desenvolvimento. A solução seria, enfim, buscar essa capacidade no capital externo, ou seja, na burguesia de outros países. FHC os desprezava e considerava pra lá de cafona os desfiles de sete de setembro. Todavia “eles” o adoravam, numa pusilanimidade incomparável. Preferiam, e preferem, submissão, vassalagem, desde que permaneçam gordos.

O Brasil foi o último pais do mundo deixar o escravagismo, e assim foi por 388 anos em 526 de história.

O Brasil é o último pais do mundo a não concluir sua reforma agrária, o que o correu nos EUA em fins do século XIX.

O Brasil possui 12% de sua força de trabalho como servidores públicos, enquanto os países da OCDE giram em torno de 21% a 23,5%, mas eles dizem que temos servidores públicos demais, aos borbotões!

O Brasil possui 418 estatais, entre federais, estaduais e municipais. Os EUA 7.000, e a Alemanha 15.000. Mas, eles dizem que temos estatais demais, uma verdadeira farra!

Com o concurso “deles”, construímos a Constituição Federal de 1988, que nos legou direitos sociais do “welfare state” e um modelo tributário medieval, baseado em impostos indiretos, sobre o consumo, liberando renda e patrimônio “deles” sem pagar nada. Isso torna o Estado mendigo de arrecadação para cumprir direitos sociais. E, ainda nos legou um sistema de governo que não é presidencialista, nem parlamentarista, nem semipresidencialista, que limita ao extremo o executivo, deixa o parlamento à vontade para controlar qualquer um que seja eleito e traga ventos de progresso, enquanto preparam um golpe para alijá-lo.

Então aparece o Lula. Um liberal progressista.

Lula nacionaliza a dívida externa; o Brasil cresce; acumula reservas internacionais; amplia direitos sociais, e oferece um pacto de construção do Brasil apesar de detestado por “eles”. Eles rejeitam. Condenam e prendem Lula.

Depois de 700 mil mortes pelo COVID e do Brasil ter sido transformado em pária internacional, Lula volta. Insiste no pacto de reconstrução do Brasil. Eles parecem rejeitar novamente, como fizeram com Getúlio, Juscelino e Jango.

Não perceberam, mas essa é a última chance “deles”.

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