Do vira-lata ao caramelo: uma lição sobre mestiçagem

Edberto Ticianeli
Com IA

Durante muito tempo, cachorro bom, no Brasil, era cachorro “de raça”. Quanto mais comprido o pedigree e mais estrangeiro o nome, maior parecia ser o prestígio do animal — e, por extensão, do dono.

As preferências mudaram com as décadas, mas desfilaram pelos quintais e apartamentos brasileiros raças como Pastor Alemão, Dobermann, Boxer, Dogue Alemão, Pequinês, Cocker Spaniel, Poodle, Yorkshire, Rottweiler, Labrador, Husky Siberiano, além do nosso Fila Brasileiro. Havia cães ingleses, alemães, franceses, chineses, russos e de muitas outras procedências. Ter um exemplar de raça pura significava, para muita gente, possuir um animal de qualidade superior. A própria cinofilia organizou-se em torno de padrões minuciosos de conformação e genealogia.

Do outro lado dessa aristocracia canina estava o cachorro sem sobrenome.

Era simplesmente o vira-lata.

A palavra praticamente explicava sua posição social. Sem raça definida, sem pedigree e quase sempre sem dono, vivia pelas ruas, dormia debaixo de marquises, acompanhava feirantes, rondava açougues e fazia exatamente aquilo que lhe deu o nome: derrubava e revirava latas de lixo à procura de alguma coisa para comer.

Ninguém perguntava quem eram seus pais ou avós. Sua árvore genealógica poderia conter dez raças diferentes e outras tantas gerações de cruzamentos absolutamente desconhecidos. Era um mestiço integral.

E justamente por isso era desprezado.

O tempo, porém, tratou de promover uma curiosa reviravolta.

A valorização da adoção e a crescente preocupação com o abandono de animais fizeram com que os cães sem raça definida começassem a entrar nas casas pela porta da frente. E muita gente descobriu aquilo que os meninos das periferias já sabiam havia muito tempo: vira-lata brinca, aprende, protege a casa, reconhece o dono, demonstra afeto e pode ser um extraordinário animal de companhia.

Também ganhou força a percepção de que a diversidade genética dos mestiços pode representar vantagem diante de algumas doenças hereditárias concentradas em determinadas linhagens. Isso não significa que todo vira-lata seja mais saudável que todo cão de raça. Um amplo estudo veterinário encontrou maior ocorrência em cães de raça pura para dez das 24 doenças genéticas examinadas, nenhuma diferença em treze e maior ocorrência nos mestiços em uma delas. Portanto, há alguma vantagem genética em determinados aspectos, mas não uma superioridade absoluta.

Quanto à inteligência, também seria exagero científico proclamar o vira-lata campeão universal. O que existe é uma experiência cotidiana que ajudou a construir sua fama: o cachorro que sobreviveu nas ruas precisou aprender a interpretar pessoas, automóveis, outros cães, horários, perigos e oportunidades. Aos olhos humanos, essa enorme capacidade de adaptação facilmente recebe o nome de esperteza.

Até que ocorreu a mais brasileira das metamorfoses.

O vira-lata ganhou uma cor e virou caramelo.

Não se trata de raça. Nem todo vira-lata é caramelo e nem todo cão de pelagem semelhante tem a mesma origem genética. Mas o personagem entrou de tal maneira no imaginário nacional que chegou ao Congresso Nacional uma proposta para reconhecer sua dimensão simbólica como manifestação cultural do Brasil.

O antigo cachorro do lixo virou meme, personagem publicitário, símbolo popular e, sobretudo, candidato respeitável à adoção. O que antes era defeito — não possuir pureza racial — deixou de importar.

Talvez seja aí que o caramelo nos ofereça uma inesperada parábola sobre o próprio Brasil.

É evidente que seres humanos não podem ser biologicamente comparados a raças caninas produzidas por seleção artificial. A analogia só faz sentido no terreno cultural e simbólico. E, nesse terreno, vale perguntar por que conseguimos descobrir tão facilmente o valor da mistura no cachorro e continuamos encontrando tanta dificuldade para lidar com a nossa própria mestiçagem.

No debate contemporâneo sobre identidade, determinados movimentos preferem enfatizar categorias raciais bem demarcadas, sobretudo a oposição entre brancos e negros, como instrumento de interpretação das desigualdades e de combate ao racismo. Há razões históricas para isso: escravidão, discriminação e desigualdade racial não desapareceram simplesmente porque milhões de brasileiros se miscigenaram.

O problema começa quando reconhecer essas injustiças exige negar ou diminuir outra realidade igualmente brasileira: somos um povo profundamente mestiçado.

É justamente aqui que Darcy Ribeiro continua provocadoramente atual.

Em O Povo Brasileiro, Darcy não descreveu o Brasil como simples prolongamento de Portugal, da África ou das sociedades indígenas. Para ele, daqui surgiu um “povo novo”, formado pela confluência — muitas vezes brutal, violenta e compulsória — de matrizes indígenas, africanas e europeias. O indígena submetido ao processo colonial, o africano arrancado de sua terra e o europeu transplantado para os trópicos não permaneceram culturalmente os mesmos. Dessa transformação nasceu algo diferente: o brasileiro.

Darcy resumiu essa interpretação numa formulação poderosa: somos um povo “mestiço na carne e no espírito”. Para ele, a mestiçagem não produziu uma população condenada a escolher permanentemente entre identidades ancestrais inconciliáveis. Produziu, historicamente, uma nova identidade étnico-nacional: a brasileira.

Isso não significa transformar a mestiçagem no velho argumento de que o Brasil vive numa perfeita “democracia racial”. O próprio Darcy rejeitava essa fantasia e denunciava os profundos abismos sociais e raciais existentes no país. A contribuição indígena foi acompanhada de extermínio e espoliação; a africana, de séculos de escravidão; e a mestiçagem ocorreu muitas vezes sob relações brutais de poder. Reconhecer o mestiço não significa apagar o negro, o indígena ou o europeu. Significa reconhecer também aquilo que nasceu do encontro entre eles.

Talvez seja possível, portanto, combater o racismo sem importar para o Brasil uma visão de sociedade rigidamente repartida em compartimentos raciais. É perfeitamente possível reconhecer a ancestralidade africana, valorizar as identidades indígenas, denunciar privilégios associados à branquitude e, ao mesmo tempo, admitir que milhões de brasileiros carregam simultaneamente essas e outras ancestralidades.

Curiosamente, o velho vira-lata parece ter resolvido antes de nós esse problema.

Ninguém pergunta ao caramelo se seu focinho veio de um antepassado alemão, se suas orelhas denunciam um ancestral africano, se o pelo lembra algum cachorro asiático ou se o rabo pertence a uma linhagem europeia. Ele é produto de incontáveis cruzamentos e, justamente por isso, acabou adquirindo uma identidade própria.

Deixou de ser aquilo que não tinha raça para ser aquilo que tem nome: caramelo.

Darcy Ribeiro talvez reconhecesse alguma coisa familiar nessa história. Afinal, sua tese fundamental era justamente a de que brasileiros não constituem europeus, africanos e indígenas vivendo lado a lado como povos separados, mas uma sociedade nova, construída com todos eles — contraditória, desigual, mestiça e ainda em processo de fazer-se.

Se finalmente aprendemos a olhar para o antigo vira-lata e enxergar nele não a ausência de uma raça, mas a presença de uma identidade, talvez esteja faltando fazer pergunta semelhante diante do espelho: por que não reconhecer a mestiçagem, sem apagar nenhuma de nossas origens nem as desigualdades produzidas pela história, como parte fundamental da identidade nacional brasileira?

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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