O verde e amarelo de volta aos verdadeiros patriotas

Edberto Ticianeli

A mobilização realizada neste sábado (17) por apoiadores da candidatura de Lula, que apareceram vestidos de verde e amarelo nas telas de celulares e computadores, ultrapassa o significado de um ato eleitoral. Simbolicamente, representa o início da retomada das cores nacionais por aqueles que entendem o patriotismo como compromisso com a soberania do Brasil, a defesa dos interesses do seu povo e a resistência às tentativas de sua subordinação a potências militares estrangeiras.

O verde e amarelo não nasceu com nenhum partido, movimento político ou liderança. Essas cores pertencem à história brasileira e a todos os que, em diferentes épocas, lutaram pela independência, pela integridade territorial e pelo direito de o país decidir seu próprio destino.

O patriotismo brasileiro foi construído em meio a conflitos e contradições. Nasceu das resistências à dominação colonial portuguesa, presentes em movimentos como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana e a Revolução Pernambucana de 1817, que expressaram, cada qual com suas particularidades, a insatisfação com a exploração colonial e a ausência de autonomia política.

Prosseguiu nas lutas pela Independência, em 1822, e nos enfrentamentos que se seguiram, especialmente na Bahia, no Maranhão e no Pará, onde a separação de Portugal precisou ser conquistada também pelas armas.

Durante o período regencial e o Segundo Reinado, o Brasil enfrentou movimentos separatistas e revoltas regionais, como a Cabanagem, a Revolução Farroupilha e a Sabinada. Esses conflitos revelaram as profundas desigualdades e disputas políticas de um país ainda em formação. A preservação da unidade territorial, diante da possibilidade de fragmentação em diferentes repúblicas, tornou-se um dos grandes desafios do século XIX. Essa unidade, entretanto, não foi conquistada sem violência, nem significou que todas as reivindicações populares tenham sido atendidas.

Na Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, milhares de brasileiros foram mobilizados para um conflito que marcou profundamente a formação do Exército e a própria consciência nacional. Embora suas causas e consequências permaneçam objeto de debate histórico, a guerra foi apresentada à população como uma defesa do território e da soberania brasileira.

Já no século XX, o patriotismo ganhou uma de suas expressões mais significativas durante a Segunda Guerra Mundial. Milhares de brasileiros participaram da luta contra o nazifascismo, especialmente os integrantes da Força Expedicionária Brasileira, que combateram na Itália. Muitos deram a vida enfrentando regimes que representavam a negação da liberdade e da autodeterminação dos povos.

Também foram manifestações de patriotismo as campanhas em defesa das riquezas nacionais. O movimento “O Petróleo é Nosso”, que mobilizou diferentes setores da sociedade nas décadas de 1940 e 1950, mostrou que a defesa da soberania podia reunir militares, estudantes, trabalhadores, intelectuais e políticos de diferentes orientações ideológicas. A criação da Petrobras, em 1953, foi uma das maiores expressões dessa mobilização.

Mais tarde, a resistência à ditadura militar e a luta pela redemocratização também incorporaram a defesa da soberania popular, afirmando que nenhum país pode ser verdadeiramente independente quando seu povo é impedido de escolher livremente seus governantes.

Essa trajetória demonstra que o patriotismo não é propriedade da esquerda nem da direita. Não se mede pelo partido a que alguém pertence, pela quantidade de bandeiras que carrega ou pelo volume com que canta o Hino Nacional. Mede-se, sobretudo, pelas posições assumidas quando os interesses do Brasil entram em conflito com os de outras nações.

Um exemplo dessa compreensão vem do general Santos Cruz, que integrou o governo de Jair Bolsonaro e se declara politicamente de direita. Ao criticar a postura de Flávio Bolsonaro em relação aos Estados Unidos, apontou uma atitude de subalternidade diante dos interesses norte-americanos. E foi contundente: “Isso aí não é direita, isso se chama vigarice”, declarou aos jornalistas.

Nos últimos anos, setores da extrema direita brasileira procuraram transformar o verde e amarelo em símbolo exclusivo de sua identidade política. A bandeira nacional passou a ser utilizada como instrumento de diferenciação partidária, como se os brasileiros que pensam de outra maneira tivessem menos direito de representá-la.

Essa apropriação indevida produziu uma distorção: um símbolo que deveria unir os brasileiros passou a ser empregado para separá-los.

A mobilização deste sábado (17) procura inverter esse processo. Ao recuperar publicamente as cores nacionais, seus participantes reafirmam que a bandeira pertence ao povo brasileiro, independentemente de suas preferências eleitorais. E recolocam no centro do debate uma questão fundamental: não basta proclamar amor ao Brasil. É preciso demonstrar esse compromisso quando a soberania nacional está ameaçada.

Não se pode declarar patriota quem defende a interferência de forças estrangeiras no Brasil, chegando ao ridículo de ostentar suas bandeiras em atos públicos. Com o evento deste sábado, o verde e amarelo começa a ser devolvido aos verdadeiros patriotas.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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