Collor, Lula, Frei Damião e as eleições de 1989

Edberto Ticianeli

Dizem que a versão popular sobre qualquer episódio é sempre a melhor, independente de ter recebido alguns adjutórios para torná-la mais engraçada. É ela que vai ser propagada, mesmo sem confirmação alguma.

A versão que vou narrar a seguir ilustra bem como isso acontece.

***

O palanque armado à margem da Rodovia Senador Arnon de Mello, em Maribondo, Alagoas, recebeu naquela noite de novembro de 1989 Fernando Collor, candidato a presidente da República, que tinha como principal adversário o líder operário Lula da Silva.

Para reforçar sua campanha, Collor convidou para esse comício Frei Damião de Bozzano, que então ostentava 90 anos de idade e se locomovia com dificuldade. O missionário capuchinho era a atração do evento.

Lembrando que já apresentava uma acentuada cifose, uma curvatura exagerada da coluna vertebral, forçando-o a manter a cabeça e o pescoço permanentemente inclinados para a frente.

Quando se aproximou o momento da entrada triunfal de Collor, conduziram o Frei, em sua cadeira de rodas, para a frente do tablado. Minutos depois, o locutor oficial da campanha iniciou a apresentação do candidato:

— Vem aí, ele que defende os descamisados; que quer acabar com os marajás do serviço público; que combate a corrupção; que vai vencer a inflação; que vai moralizar a política… Recebam agora o futuro presidente da República…

E o foguetório tomou conta dos céus de Maribondo sob o ritmo de uma charanga que tocava inadvertidamente a marchinha “Mamãe eu quero mamar”.

Collor se aproximou do microfone e pôs uma das mãos no ombro do Frei Damião. O locutor, vendo ali uma oportunidade de colocar em cena o capuchinho, falou:

— Frei Damião, o futuro presidente do Brasil já está ao seu lado. O que o senhor tem a dizer?

Como tinha dificuldade para mover o pescoço, o velho capuchinho somente fez um leve movimento e se esforçando para ver alguma coisa pelo canto do olho, falou:

— É o Lula, né?

O locutor tentou consertar:

— Sim, meu caro Frei, ele é de luta!

Mas já era tarde. O desconforto do candidato ficou evidente, principalmente por causa do ar de riso que apareceu nos rostos de muita gente da plateia.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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