A vitória de Lula e os novos caminhos da mobilização política
Edberto Ticianeli
Lendo as primeiras análises sobre a vitória de Lula na eleição de ontem (25), procurei afastar as emoções do momento para identificar os ensinamentos dessa virada histórica. Lembrei-me, então, de uma conversa que tive há alguns dias com o Mago Adelmo, o economista Adelmo Mota, quando especulávamos sobre as possibilidades eleitorais de Lula a partir de dois fatos novos que surgiram na campanha do segundo turno.
O primeiro deles foi a entrada em cena das mobilizações estudantis, inicialmente deflagradas como reação às agressões sofridas pelas universidades e às ameaças ao seu futuro como instituições fundamentais para o desenvolvimento do país. Rapidamente, essa indignação ultrapassou os limites dos ambientes acadêmicos e assumiu um caráter mais amplo, transformando-se em luta pela democracia.
O segundo fato novo surgiu em outro território, o das redes sociais. Foi ali que nasceu o Exército do Lula, que, sob a liderança do deputado André Janones, conseguiu estabelecer uma espécie de comando nacional para milhões de militantes da campanha. Algo que as estruturas partidárias da esquerda jamais haviam conseguido realizar com tamanha rapidez e alcance, até porque, incompreensivelmente, insistiam em subestimar a importância política das novas mídias.
Janones chegou ao dia da eleição comandando um exército de 10,8 milhões de “soldados”. Considerando que Lula conquistou 64.256.232 votos, esse contingente corresponde a 16,81% de seu eleitorado. Um feito tão expressivo que levou o próprio Lula a reconhecer a necessidade de dedicar maior atenção às redes sociais.
Mas quais foram as missões desse Exército?
A primeira foi ampliar rapidamente suas fileiras, fazendo crescer de forma exponencial o número de participantes. Para isso, Janones conquistou a confiança dos militantes com uma mensagem simples e insistente: a vitória era possível, desde que todos acreditassem nela e seguissem as orientações da campanha.
A segunda missão foi retirar os soldados de sua tradicional zona de conforto. Acostumados a conversarem, compartilharem mensagens e trocarem argumentos quase exclusivamente entre companheiros que já pensavam da mesma forma, precisavam aprender a “furar a bolha”, alcançar outros eleitores, disputar opiniões e conquistar novos apoios.
A terceira missão, talvez a mais importante, nasceu da constatação, apontada pelas pesquisas, de que havia votos potenciais para Lula escondidos entre os eleitores que costumavam se abster. Era necessário convencê-los a comparecerem às urnas e, principalmente, ajudá-los a superar as dificuldades de deslocamento no dia da votação.
A tarefa era difícil, mas os números indicam que o esforço de mobilização produziu resultados. A abstenção diminuiu no segundo turno, levando 2.960.239 eleitores a mais às urnas. Evidentemente, não se pode atribuir todo esse resultado a uma única iniciativa, mas seria um erro desprezar a contribuição do Exército do Lula.
Já encontrei análises tentando estabelecer qual desses dois fatos novos teria contribuído mais decisivamente para a virada eleitoral. Minha avaliação é que eles não atuaram isoladamente. Pelo contrário, alimentaram-se mutuamente e, dessa interação, nasceu o que podemos definir como um terceiro fenômeno político: a multiplicação das mobilizações de rua pela força das redes sociais e vice-versa.
A divulgação das primeiras manifestações estudantis ajudou a estimular novas concentrações, num movimento crescente que ultrapassou os limites das universidades e das grandes capitais. As ruas começaram a ser ocupadas também em pequenas cidades do interior, até que aquela onda de mobilização alcançou sua expressão mais impressionante nas gigantescas concentrações do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Ao mesmo tempo, as imagens das multidões nas ruas entusiasmavam aqueles que acompanhavam a campanha pelas redes sociais. O entusiasmo se transformava em participação, a participação em militância e a militância em novas iniciativas de mobilização. Muitos desses brasileiros acabaram “sentando praça” no Exército do Lula, dispostos a prestarem continência ao “General Janones” às cinco horas da manhã.
Estabeleceu-se, assim, uma relação de estímulo permanente entre as ruas e as redes. O que acontecia nas praças ganhava repercussão nas telas dos celulares, e o que circulava pelos celulares ajudava a levar mais gente às praças. A campanha deixava de depender exclusivamente das estruturas partidárias tradicionais e encontrava novas formas de organização, comunicação e participação popular.
Talvez esteja aí um dos maiores ensinamentos dessa eleição. As mobilizações presenciais continuam indispensáveis à ação política, mas já não podem ser pensadas separadamente das novas formas de comunicação. As redes sociais demonstraram que podem servir à organização coletiva, à convocação de manifestações e à disputa política para além dos círculos habituais da militância.
Foi com essa combinação de forças, somada a tantos outros fatores políticos e eleitorais, que Lula conseguiu ampliar sua votação de 53.879.538 votos no primeiro turno para 64.256.232 no segundo. Uma conquista de mais de dez milhões de votos, que confirmou a vitória eleitoral e deixou uma lição para o futuro: a política continua sendo feita por pessoas, nas ruas e nas comunidades, mas hoje também se organiza, ganha força e disputa consciências nas redes sociais.