Tristes trópicos
Miguel Gustavo de Paiva Torres
A Europa teve a sua Escola de Frankfurt e o Brasil teve a revolução do pensamento brasileiro com a missão francesa de 1935, que incluiu a USP no quadro das grandes universidades do mundo.
Claude Levy Strauss, judeu asquenaze, foi a estrela que brilhou no Cruzeiro do Sul.
Oficialmente veio ensinar sociologia, mas conseguiu penetrar, entender e compreender o Brasil. Fato único na história da inteligência nacional ou desnacionalizada por decisão nacional.
Embrenhou-se em nossas matas, rios e florestas para entender o país que a maioria dos brasileiros de então nunca teve interesse em compreender.
Suas expedições etnográficas formaram a base da antropologia estruturante. A maior e mais relevante de suas diversas contribuições ao avanço da civilização ocidental.
O Brasil que Levy Strauss encontrou na São Paulo dos bandeirantes, em 1935, não passava então de uma pequena ilha europeia perdida no Atlântico Sul.
Até os dias de hoje, com o século XXI avançando na velocidade da luz, o Brasil não conhece o Brasil.
Deixou de ser uma ilha para tornar-se um grande arquipélago flutuando à deriva da Europa, da Ásia e da África.
Com exceção das grandes ilhas de cultura, artes e pensamento brasileiro original no Nordeste e Norte do país — com seus reflexos nas grandes migrações internas para São Paulo e Rio de Janeiro —, sobraram pequenas ilhas europeias atrasadas no tempo e no espaço ao Sul do arquipélago, excetuado o Rio Grande do Sul de Érico Veríssimo, Giuseppe e Anita Garibaldi, um fenômeno histórico cultural e sociológico à parte, com a sua Revolução Farroupilha e os tambores africanos nas charqueadas dos Pampas.
Foi Levy Strauss o primeiro a pensar em brasileiro. Até então pensavam o Brasil em francês, inglês, alemão, italiano, açoriano, português, polonês, ucraniano e outros matizes culturais considerados superiores.
Foi ele quem abriu não só os olhos, mas sobretudo a cabeça dos pensantes brasileiros abaixo da linha do Equador.
A força das raízes do Grão Pará, Amazônia e amazônidas, Bahia de todos os santos e Orixás, Pernambuco e Alagoas construídas em movimentos únicos de cultura e miscigenação total e completa de portugueses, holandeses, pretos Angola, Daomé, Congo e toda a África negra e arábica.
Um povo único com uma só língua de comunicação e gramáticas, e alfabetos diversos.
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e nossos ancestrais do Xingu e dos Sertões nunca imaginaram que esqueceriam a grandeza de Levy Strauss e da Escola da USP.
As elites na esquerda, centro e direita preferiram discutir a “modernidade” original do Brasil a partir da Escola de Frankfurt, suas ideologias, estética, música, ideias e filosofia.
Eu fico com Levy Strauss, seu olfato e paladar brasileiríssimo, ao som de Villa Lobos e com o sonho de ser um novo ser.
Abraço de Leve, Strauss.