O último governo Lula e a possível reacomodação das forças políticas no Brasil
Edberto Ticianeli
Com IA
As primeiras análises sobre a composição do Congresso Nacional que acompanhará o próximo governo Lula apontam para um cenário de dificuldades políticas. O fortalecimento das bancadas conservadoras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal é apresentado como um obstáculo à governabilidade, obrigando o presidente a negociar permanentemente com forças políticas que fizeram oposição à sua candidatura.
Essa avaliação, entretanto, considera principalmente a correlação de forças produzida pelas urnas e dá pouca atenção a um fenômeno que poderá alterar profundamente o comportamento dos parlamentares: o esgotamento de um ciclo de lideranças políticas, tanto na direita quanto na esquerda, e a consequente disputa pela sucessão desses líderes.
O Congresso que inicia uma legislatura não é necessariamente o mesmo que chegará ao final dela. Deputados e senadores não se movimentam exclusivamente por fidelidade partidária ou convicções ideológicas. Suas decisões também consideram as possibilidades de sobrevivência eleitoral, os espaços de poder disponíveis e, principalmente, as perspectivas de quem estará em condições de disputar a Presidência da República na eleição seguinte.
É nesse terreno que poderão ocorrer mudanças importantes.
Os números confirmam o fortalecimento da direita. O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada da Câmara, e deverá contar com 29 senadores, conforme a projeção atualizada pelo Senado Federal após o segundo turno. Somados aos dez deputados e três senadores do Novo, os dois partidos terão 131 representantes na Câmara e 32 no Senado.
Outras legendas com forte presença conservadora também terão peso decisivo. A federação União Progressista elegeu 87 deputados, enquanto o Republicanos conquistou 41 cadeiras. No Senado, o PP terá seis representantes, e União Brasil e Republicanos, cinco cada um. São forças que podem se alinhar à oposição, mas que também possuem tradição de negociação com diferentes governos.
A dimensão dessas bancadas explica as preocupações com a governabilidade. Mas será que todos esses parlamentares manterão, durante quatro anos, o mesmo comportamento político que tiveram durante a campanha eleitoral?
A resposta depende, em boa medida, do que acontecerá com as lideranças que organizaram a disputa presidencial de 2026.
No campo da extrema direita, a família Bolsonaro demonstrou capacidade de mobilização eleitoral, mas a derrota de Flávio Bolsonaro, com a sua fuga para os EUA, recoloca a questão da sucessão de sua liderança. Embora o bolsonarismo continue representando uma força eleitoral expressiva, não está assegurado que algum de seus integrantes consiga reproduzir, na próxima eleição presidencial, o desempenho alcançado por Jair Bolsonaro e, agora, por Flávio.
É uma diferença importante. Uma coisa é possuir uma bancada numerosa no Congresso. Outra é contar com uma liderança nacional capaz de transformar essa representação parlamentar em perspectiva concreta de conquista da Presidência da República.
Sem essa garantia, deputados e senadores conservadores poderão começar a procurar outras referências políticas. Alguns permanecerão fiéis ao bolsonarismo, mas outros tenderão a se aproximar de lideranças com maior possibilidade de vitória em 2030.
Esse movimento, se acontecer, tenderá enfraquecer a unidade da oposição e abrir espaços para entendimentos com o governo Lula.
Curiosamente, no campo governista ocorre um fenômeno semelhante, embora por razões diferentes.
Lula conquistou mais um mandato presidencial, mas sua liderança pessoal continua sendo muito superior à capacidade eleitoral dos demais dirigentes do PT. Até agora, o partido não apresentou um nome com densidade política e popularidade suficientes para assegurar a continuidade do projeto petista na Presidência da República.
Como o quarto mandato de Lula terá a missão de preparar a sua sucessão, não se pode descartar a possibilidade deste sucessor não sair das fileiras do PT.
Já existem relações políticas que podem conduzir para a construção de uma candidatura oriunda do Centro, apoiada por Lula e por uma aliança política mais ampla do que aquela que tradicionalmente sustenta o Partido dos Trabalhadores, garantindo que a extrema direita volte a ser uma corrente política sem musculatura para voltar a disputar o poder.
Essa possibilidade modifica substancialmente os projetos dos parlamentares oposicionistas.
Se começar a se consolidar a perspectiva de que Lula encerrará sua trajetória presidencial transferindo o comando político para uma liderança de Centro, parte dos atuais oposicionistas poderá encontrar nesse projeto uma alternativa mais promissora do que a permanência numa oposição radical.
Afinal, setores importantes da direita brasileira nunca tiveram dificuldades em participar de governos de composição ampla. Suas relações com o poder sempre foram marcadas por considerações eleitorais, interesses regionais e possibilidades de influência na administração federal.
O próprio Lula conhece bem essa dinâmica. Suas experiências anteriores demonstraram que a construção de maiorias parlamentares depende menos da identidade ideológica dos partidos do que da capacidade de estabelecer acordos políticos duradouros.
Há, entretanto, uma questão decisiva: a eventual passagem do bastão para o Centro não poderá ser percebida como simples escolha pessoal de Lula. Para ter força eleitoral, o sucessor precisará construir identidade própria, conquistar a confiança dos setores progressistas e, ao mesmo tempo, oferecer condições para atrair segmentos conservadores que não desejem permanecer vinculados à extrema direita.
Essa operação também encontrará resistências dentro do PT, especialmente entre aqueles que defendem a manutenção do protagonismo partidário na sucessão presidencial.
Ainda assim, o cenário merece atenção. Tanto a direita bolsonarista quanto a esquerda petista poderão chegar a 2030 diante do mesmo problema: encontrar uma liderança capaz de substituir suas principais referênciais eleitorais. E, quando os dois polos enfrentam dificuldades de sucessão, o Centro político ganha espaço para se apresentar como alternativa.
Isso não significa que o próximo governo Lula terá vida fácil. O fortalecimento da direita no Congresso é um fato, e sua capacidade de impor derrotas ao Executivo não pode ser subestimada. Também seria precipitado decretar o fim da influência eleitoral dos Bolsonaros ou afirmar que o PT aceitará naturalmente abrir mão de uma candidatura própria.
Entretanto, se ficar claro que o último governo Lula será também um governo de transição, destinado a passar o bastão para uma liderança de Centro, setores expressivos da direita poderão ser atraídos para esse projeto.
A disputa decisiva, portanto, talvez não seja apenas entre Lula e a oposição parlamentar que acaba de sair das urnas. Poderá ser também uma disputa antecipada pela configuração do poder depois de Lula.
E é essa perspectiva que pode mudar o comportamento do Congresso muito antes de 2030.