Os povos originários e o mito das sociedades sem conflitos

Edberto Ticianeli
Com IA

A história da humanidade não começou com a paz, nem a violência surgiu com a civilização. Muito antes da formação dos Estados modernos, do colonialismo europeu e das grandes guerras entre nações, os povos que habitavam os diferentes continentes já conheciam disputas territoriais, rivalidades políticas, conflitos religiosos, guerras de conquista e lutas pelo controle dos recursos naturais.

Todos nós descendemos de populações que, em algum momento, viveram organizadas em pequenos grupos, comunidades de caçadores e coletores, aldeias agrícolas ou sociedades que hoje costumamos chamar de tribais. Essa ancestralidade comum, entretanto, não autoriza imaginar que nossos antepassados viviam em comunidades idílicas, marcadas exclusivamente pela solidariedade, pela igualdade e pela convivência pacífica com a natureza.

A arqueologia, a antropologia e os registros históricos revelam uma realidade muito mais complexa. Havia sociedades relativamente pacíficas, outras fortemente militarizadas e muitas que alternavam períodos de cooperação e conflito. A guerra não era universal nem permanente, mas tampouco era desconhecida.

América: guerras antes da chegada dos europeus

Na América, as guerras entre povos indígenas antecederam em muitos séculos a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, e dos portugueses ao Brasil, em 1500.

Na América do Norte, diferentes povos originários mantinham rivalidades territoriais, políticas e militares muito antes da colonização europeia. Entre os iroqueses, também conhecidos como Haudenosaunee, as tradições históricas registram um passado de conflitos entre as nações que posteriormente formariam uma confederação, inicialmente composta por mohawks, oneidas, onondagas, cayugas e senecas. A criação dessa aliança, cuja data exata é debatida, estabeleceu mecanismos de negociação e resolução de disputas internas, sem eliminar os confrontos com povos vizinhos.

Na região dos Grandes Lagos e do vale do rio São Lourenço, iroqueses, hurões (wendats) e algonquinos protagonizaram rivalidades que, após a chegada dos europeus, foram intensificadas pela disputa do comércio de peles e pelo acesso às armas de fogo. No século XVII, as chamadas Guerras dos Castores provocaram mortes, deslocamentos populacionais e a dispersão de comunidades inteiras.

Nas Grandes Planícies, povos como os sioux (lakotas, dakotas e nakotas), cheyennes, arapahos, pawnees e comanches participaram de disputas por territórios, áreas de caça e prestígio militar. A captura de cavalos, incorporados à vida dessas sociedades depois de sua introdução pelos europeus, tornou-se importante em muitos conflitos. Entretanto, as rivalidades entre diferentes comunidades já existiam antes dessa transformação.

No atual sudoeste dos Estados Unidos, povos ancestrais dos pueblos construíram aldeias fortificadas e, em determinados períodos, enfrentaram episódios de violência coletiva. O sítio arqueológico de Crow Creek, na atual Dakota do Sul, apresenta evidências de um massacre ocorrido por volta de 1325, no qual centenas de pessoas morreram, demonstrando que conflitos de grande intensidade também aconteciam antes da presença colonial europeia naquela região.

Na Mesoamérica, os astecas construíram um império por meio de alianças militares, conquistas e submissão de outras populações. Cidades e povos derrotados eram obrigados a pagar tributos, fornecer produtos e, em determinadas circunstâncias, entregar prisioneiros destinados aos sacrifícios religiosos. As chamadas guerras floridas, praticadas entre determinados Estados, tinham entre seus objetivos a captura de guerreiros para rituais.

Os conflitos entre os astecas e seus adversários, especialmente os tlaxcaltecas, ajudaram a explicar o sucesso da conquista espanhola. Hernán Cortés não derrotou o Império Asteca apenas com soldados europeus. Contou com milhares de combatentes indígenas que viam na aliança com os espanhóis uma oportunidade de enfrentar o domínio de Tenochtitlán.

Na América do Sul, o Império Inca também expandiu seus domínios por meio de conquistas militares, negociações e incorporação compulsória de diferentes povos. Os incas enfrentaram a resistência de populações andinas e, pouco antes da chegada dos espanhóis, foram envolvidos numa violenta guerra civil entre os partidários de Huáscar e Atahualpa.

No território que se tornaria o Brasil, as rivalidades entre diferentes povos indígenas também eram frequentes, embora variassem muito conforme a região e o período.

Entre grupos tupinambás e tupiniquins, por exemplo, existiam guerras, alianças e práticas de captura de inimigos. Em determinados contextos tupinambás, a antropofagia ritual fazia parte de um sistema de vingança e afirmação guerreira. Não era simplesmente uma prática alimentar, mas um fenômeno cultural ligado à honra, à memória dos mortos e às relações entre comunidades inimigas.

Na região do atual Rio de Janeiro, os conflitos entre grupos indígenas foram aproveitados pelos colonizadores portugueses e franceses, que estabeleceram alianças militares com diferentes populações.

Esses episódios não diminuem a violência da colonização europeia, responsável por massacres, escravização, expulsões territoriais e destruição de inúmeras sociedades indígenas. Demonstram, porém, que a América anterior à conquista não constituía um continente de povos permanentemente unidos e pacíficos. Os povos originários norte-americanos, mesoamericanos e sul-americanos possuíam histórias próprias, com alianças, rivalidades, conquistas e guerras, muito antes de seus primeiros contatos com os europeus.

África: rivalidades, conquistas e formação de impérios

A África apresenta uma história igualmente marcada pela diversidade de organizações sociais e políticas.

Muito antes da expansão colonial europeia, diferentes sociedades africanas desenvolveram reinos, impérios, cidades comerciais e estruturas militares.

No nordeste africano, egípcios e núbios alternaram guerras, relações comerciais, alianças e períodos de domínio político. Em determinados momentos, governantes núbios chegaram a controlar o próprio Egito.

Na África Ocidental, impérios como Gana, Mali e Songhai disputaram rotas comerciais, territórios e centros de poder. As guerras acompanhavam a expansão dessas formações políticas, embora a diplomacia e as relações econômicas também desempenhassem papéis importantes.

O Reino do Daomé, na região do atual Benim, tornou-se conhecido por sua organização militar, inclusive por unidades de combatentes mulheres. Participou de guerras de expansão, capturou prisioneiros e esteve envolvido no comércio de pessoas escravizadas.

Na África Austral, durante o século XIX, a expansão do reino zulu sob Shaka e seus sucessores ocorreu em meio a profundas transformações políticas e militares, conflitos entre chefaturas e deslocamentos populacionais. Esse processo, frequentemente associado ao mfecane, possui causas e interpretações ainda debatidas pelos historiadores.

Também na África, portanto, não existiu uma única experiência ancestral. Sociedades pequenas conviviam com Estados poderosos, comunidades pacíficas com formações guerreiras, e relações de solidariedade interna podiam coexistir com conflitos contra populações vizinhas.

Ásia: das comunidades antigas aos grandes conquistadores

A Ásia oferece alguns dos registros mais antigos de conflitos organizados.

Na Mesopotâmia, cidades sumérias como Lagash e Umma disputavam terras agrícolas e recursos hídricos há aproximadamente 4.500 anos. Inscrições e monumentos, como a Estela dos Abutres, documentam episódios dessas guerras.

Na China antiga, diferentes comunidades e formações políticas travaram conflitos antes mesmo da unificação imperial. Durante as dinastias Shang e Zhou, guerras, alianças e disputas territoriais integravam a organização do poder.

Nas estepes da Ásia Central, sociedades pastoris desenvolveram tradições militares ligadas à mobilidade e ao uso do cavalo. Séculos depois, a unificação de diferentes grupos mongóis sob Gêngis Khan, no início do século XIII, deu origem a um dos maiores impérios conquistadores da história.

É importante distinguir essas sociedades historicamente documentadas das primeiras comunidades humanas da Ásia. A existência de impérios guerreiros não significa que todas as populações ancestrais asiáticas praticassem guerras com a mesma intensidade.

Os registros arqueológicos mostram diferentes experiências, desde comunidades agrícolas relativamente estáveis até sociedades que construíram fortificações e acumularam armas.

Na Europa, os conflitos entre populações ancestrais também antecedem em milhares de anos os grandes impérios da Antiguidade.

Um dos exemplos mais conhecidos é o sítio arqueológico de Talheim, na atual Alemanha, onde uma sepultura coletiva do período Neolítico, datada de aproximadamente 7 mil anos, contém restos humanos com sinais de mortes violentas. As evidências sugerem um massacre envolvendo uma comunidade agrícola.

Outro sítio, em Schöneck-Kilianstädten, também na Alemanha, apresenta sinais de violência coletiva durante o Neolítico.

Na região do rio Tollense, no norte da Alemanha, arqueólogos encontraram vestígios de um grande confronto ocorrido por volta de 1250 a.C., durante a Idade do Bronze. Ossadas com ferimentos, armas e outros objetos indicam a participação de numerosos combatentes.

Mais tarde, celtas, germanos, trácios e outros povos europeus desenvolveram organizações políticas e militares diversas. Suas guerras podiam envolver disputas por terras, controle de rotas comerciais, prestígio de lideranças e rivalidades entre comunidades.

A Europa anterior aos romanos, portanto, estava longe de constituir um território sem guerras. E os próprios romanos, que frequentemente classificavam outros povos como bárbaros, construíram seu poder por meio de conquistas militares, escravização e submissão de populações.

Oceania: conflitos nas ilhas do Pacífico

Na Oceania, os povos originários também desenvolveram experiências muito diferentes de convivência e conflito.

Na Nova Zelândia, os maoris organizavam-se em grupos de parentesco e comunidades políticas que podiam estabelecer alianças ou enfrentar-se militarmente. As disputas por territórios, recursos e prestígio estavam entre as causas dos confrontos. As fortificações conhecidas como pā demonstram a importância que a defesa militar assumiu em determinadas épocas.

Na Nova Guiné, conflitos entre comunidades das terras altas foram documentados pela antropologia, envolvendo disputas territoriais, vinganças e rivalidades locais. Essas guerras coexistiam com sistemas complexos de trocas, casamentos e relações de reciprocidade.

No Havaí, antes da unificação do arquipélago por Kamehameha I, no final do século XVIII e início do XIX, diferentes chefaturas e reinos insulares disputavam o poder. A unificação ocorreu por meio de campanhas militares e alianças políticas.

Quanto à Austrália aborígene, há evidências de confrontos e violência entre grupos em diferentes épocas e regiões. Entretanto, as formas de organização e a frequência dos conflitos variavam bastante. Seria incorreto atribuir a todos os povos aborígenes um mesmo padrão de comportamento guerreiro.

A ancestralidade humana não é um certificado de inocência

A ideia de que os povos ancestrais viviam em harmonia permanente tem raízes em antigas interpretações filosóficas e políticas, particularmente na imagem do chamado bom selvagem, frequentemente associada, embora de maneira simplificada, ao pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

Essa idealização ganhou diferentes formas ao longo do tempo. Em algumas interpretações, os povos originários aparecem como representantes de uma humanidade ainda não corrompida pela propriedade privada, pela formação dos Estados ou pela expansão das sociedades industriais.

O problema dessa visão é transformar populações humanas reais em personagens de uma fantasia moral.

As sociedades ancestrais não eram todas iguais. Algumas desenvolveram mecanismos eficazes de resolução pacífica de conflitos. Outras valorizavam a guerra, a captura de inimigos ou a expansão territorial. Muitas combinavam solidariedade comunitária, cooperação econômica, rivalidades políticas e episódios de violência.

Também é necessário reconhecer que os registros arqueológicos são incompletos. A descoberta de massacres antigos demonstra que a violência existia, mas não permite concluir que a guerra fosse permanente ou inevitável em todas as sociedades. Da mesma forma, a ausência de vestígios de conflitos não prova que determinada comunidade jamais tenha conhecido a violência.

Há ainda uma distinção fundamental: reconhecer os conflitos entre povos originários não significa justificar a violência praticada contra eles pelos colonizadores. A existência de guerras indígenas não legitima invasões territoriais, escravização, extermínio ou políticas de destruição cultural. São acontecimentos históricos que precisam ser compreendidos em seus próprios contextos.

O mesmo cuidado deve orientar a análise de qualquer ancestralidade. Europeus, africanos, asiáticos, americanos e povos da Oceania descendem de sociedades que conheceram diferentes formas de organização, cooperação, dominação e violência.

Não existe povo que possua o monopólio da virtude ancestral, assim como não existe povo biologicamente destinado à guerra.

Ter orgulho das próprias origens é legítimo. Transformar os antepassados em seres moralmente superiores, imunes às contradições humanas, é abandonar a história em favor do mito.

Nossos ancestrais foram capazes de construir comunidades solidárias, produzir conhecimentos, desenvolver culturas e estabelecer relações complexas com a natureza. Também foram capazes de guerrear, dominar, escravizar e matar.

Reconhecer essa realidade não diminui o valor de suas experiências. Apenas devolve a esses povos aquilo que a idealização costuma lhes retirar: sua condição plenamente humana.

E talvez a principal lição da história seja justamente esta: a humanidade não herdou de seus antepassados um passado de inocência perdida, mas uma longa experiência de conflitos e cooperação, da qual ainda procura aprender a construir formas melhores de convivência.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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