Entre a defesa e a ofensiva: que momento político vive o Brasil?
Edberto Ticianeli
A vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras foi antecedida por gigantescas manifestações populares contrárias à eleição de Flávio Bolsonaro e favoráveis ao candidato petista.
Para alguns analistas, aquelas multidões nas ruas representaram um ponto de inflexão na política brasileira, sinalizando a retomada das lutas de massas no campo progressista e a passagem de uma fase defensiva para outra, de caráter ofensivo.
Mas será que essa interpretação corresponde à realidade?
Para compreender melhor a diferença entre esses dois momentos, convém recorrer aos ensinamentos do estrategista militar prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831), autor do clássico Da Guerra.
Clausewitz ensinava que a defesa e o ataque são momentos distintos, mas complementares, de um mesmo conflito. Considerava a defesa a forma mais forte de combate, enquanto o ataque buscava alcançar um objetivo decisivo.
Defender-se, portanto, não significa permanecer passivo. Significa preservar forças, resistir ao adversário, explorar suas fraquezas e preparar as condições para uma ofensiva.
Da mesma forma, atacar sem considerar a correlação de forças pode conduzir ao esgotamento e à derrota. A sabedoria estratégica está em reconhecer quando resistir, quando recuar e quando avançar. A passagem da defesa para a ofensiva depende das condições concretas, e não simplesmente da vontade de atacar.
É a partir dessa compreensão que tenho dificuldades em reconhecer nas grandes manifestações da campanha eleitoral o início de uma fase ofensiva das forças progressistas brasileiras. Mesmo porque não está claramente delineado o objetivo a ser conquistado. Não há estratégias em busca de rupturas.
Observo que o movimento de massas pré-eleitoral começou nas universidades, como reação às ameaças representadas pelas propostas bolsonaristas para o ensino superior público, especialmente diante da perspectiva de redução dos investimentos. Nasceu, portanto, como uma mobilização defensiva, voltada à preservação de conquistas e dos direitos ameaçados.
Com o crescimento das manifestações, essa resistência ultrapassou os limites das universidades e assumiu um caráter político mais amplo, transformando-se em luta pela democracia.
Entretanto, a expansão das manifestações não significa, necessariamente, uma mudança na natureza do movimento. Uma mobilização defensiva pode alcançar enormes proporções sem que isso represente a passagem para uma fase ofensiva.
Observe-se, por exemplo, o comportamento do movimento sindical. Mesmo diante de uma bandeira de grande alcance popular, como o fim da escala de trabalho 6×1, os sindicatos não conseguiram produzir mobilizações de massas semelhantes às nascidas no ambiente universitário e na campanha eleitoral.
Esse contraste merece atenção. Afinal, uma fase ofensiva pressupõe capacidade de mobilização relativamente permanente, organização social e condições políticas para disputar mudanças que ultrapassem a preservação das conquistas existentes.
A distinção está longe de ser apenas teórica. Saber se o campo progressista atravessa um momento defensivo ou ofensivo terá consequências importantes na construção da candidatura destinada a suceder Lula em 2030.
Se prevalecer a interpretação de que as multidões nas ruas inauguraram uma fase ofensiva, é provável que ganhem espaço projetos políticos comprometidos com mudanças estruturais na sociedade brasileira.
Se, ao contrário, a conclusão for a de que aquelas manifestações representaram uma reação defensiva, ainda que vitoriosa, a construção do campo político e eleitoral poderá assumir outro perfil, com maior preocupação em preservar conquistas, ampliar alianças e acumular forças, desde que se estabeleça o objetivo a ser alcançado.
Uma coisa, entretanto, já se vislumbra no cenário político: a extrema direita sofreu derrotas importantes nos últimos dias. É o suficiente para que alguém se arrisque afirmar que, num futuro próximo, veremos o povo caminhando em direção a um belo alvorecer, como nas cenas finais dos velhos filmes?