O lustre e o tapete da embaixada

Miguel Gustavo de Paiva Torres

Quando iniciei minha carreira de servidor público como diplomata, em janeiro de 1976, aos 22 anos, o Itamaraty ainda era uma Torre de Marfim praticamente impenetrável na administração pública brasileira.

Predominava ainda uma tradição hereditária que teve início no Império e continuou República adentro. Os embaixadores, grande parte, ostentavam nomes de famílias que perpassaram séculos e emprestavam prestigio político e social à Casa.

Lembro bem que um dos motes era o de que diplomata não reclamava do salário miserável no Brasil, porque diplomata não falava em dinheiro.

Também seguindo a tradição secular no Brasil das promíscuas relações entre o público e o privado, muita coisa acontecia entre as quatro paredes da instituição, e lá deveriam ficar seguindo a regra de que “noblesse oblige”.

Assim, fiquei perplexo quando escutei conversas dos meus colegas mais antigos, indignado com um embaixador que, cabalmente, havia roubado um valioso lustre de cristal pertencente ao patrimônio público, da residência da Embaixada em Tóquio.

Exceção, pensei.

Anos mais tarde fui trabalhar com a doce e competente chefe da Divisão do Patrimônio do Itamaraty, conselheira Mair Ione. Fiquei responsável pelo acompanhamento do patrimônio do Ministério no Brasil e no exterior.

O funcionário administrativo responsável pelo assunto na Divisão era um idoso servidor, senhor Souza Pinto, que tinha todo o patrimônio material do Itamaraty anotado à mão em cadernos. E todos os anos atualizava os seus cadernos.

Souza Pinto tomava conta do patrimônio com rigor e dedicação. Era um exemplo de servidor público. Por isso ficava apoplético quando aconteciam “baixas” suspeitas ou suspeitíssimas em seus cadernos.

Belo dia entra vermelho de raiva em minha sala brandindo um telegrama pelo qual um embaixador pedia a “baixa” de um enorme tapete do século XVIII, sob alegação de que o seu cachorro Bulldog havia estraçalhado quase tudo e, portanto, estava inservível.

Outro dia, a ponto de ter um enfarte, vem novamente brandindo telegrama pelo qual outro embaixador pedia para dar baixa em um faqueiro inteiro de prata maciça, porque os empregados da Residência teriam sistematicamente jogado no lixo esses talheres, juntamente com os restos de comida servida nos jantares sociais e oficiais.

Coitado do Souza Pinto.

Cada telegrama desses era tratado como ofensa pessoal à sua inteligência de velho guardião do patrimônio do Itamaraty. Isto, sem falar nas obras de arte que se quebravam ou desbotavam.

O novo Chefe Geral da Administração do Itamaraty, na época, embaixador Eduardo Hosannah, paraense, rígido e íntegro como Souza Pinto, resolveu dar um basta nessa estranha “tradição”.

Passei então a coordenar a informatização de todo o patrimônio móvel do Itamaraty, uma novidade na época. Dois programas básicos: um para os bens comuns e outro para os bens culturais, em Brasília e em todos os postos no exterior.

Começamos pelas grandes embaixadas na Europa, Washington e América do Sul: Souza Pinto rejuvenesceu pelo menos uns vinte anos, nessa fase de modernização do seu “métier” de toda uma vida.

Acompanhava nossas missões aos postos e sabia, com precisão, o lugar onde deveria estar cada objeto nos postos, sem nunca ter saído anteriormente, um só dia de trabalho, da sua sala na antiga Divisão do Patrimônio do MRE.

Ficava feliz quando tudo estava em ordem e indignado quando havia sumiço de qualquer peça, mesmo as mais insignificantes, fosse quem fosse o poderoso chefão do Posto. A sua dedicação e altiva honradez ficou carimbada para sempre em minha memória. Selada com lacre.

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