O fim do “espírito olímpico” no futebol

Edberto Ticianeli
Utilizando recursos da IA

O futebol sempre foi muito mais do que um simples jogo. Durante décadas, foi celebrado como uma escola de convivência, disciplina, respeito às regras e superação. A vitória era desejada, mas havia a compreensão de que ela deveria ser conquistada dentro dos limites da lealdade esportiva. Hoje, entretanto, percebe-se que esses valores estão sendo substituídos por uma lógica na qual o resultado justifica qualquer comportamento.

Tornaram-se comuns as cenas de jogadores que simulam faltas, exageram contusões ou permanecem longos minutos caídos no gramado para interromper o ritmo da partida. Alguns pressionam indevidamente a arbitragem para induzi-la a punir o adversário.

Em muitos casos, a encenação é tão evidente que chega a constranger quem assiste. Em outros, há algo ainda mais preocupante: faltas deliberadamente violentas, praticadas com o objetivo de intimidar ou retirar da competição os principais jogadores da equipe adversária.

Essas atitudes não representam apenas infrações às regras do jogo. Elas corroem a essência do esporte. Quando vencer se torna mais importante do que competir com honestidade, o adversário deixa de ser um parceiro indispensável para a disputa e passa a ser visto como um obstáculo a ser eliminado. A busca por essa eliminação se estende para o extracampo, principalmente para as torcidas, que passaram a se organizarem para enfrentar conflitos com os torcedores adversários, vários deles com mortes.

Como resultado dessa cultura, as demonstrações de fair play tornaram-se cada vez mais raras. Gestos como interromper um ataque para atender um adversário realmente lesionado, admitir que a bola tocou por último em si mesmo ou devolver a posse de bola ao outro time após uma paralisação já não despertam tanta admiração. Tornaram-se exceções.

Esse fenômeno contrasta profundamente com o que se convencionou chamar de espírito olímpico, que procurava promover valores humanos universais, estimulando a solidariedade, o respeito ao adversário e ao jogo limpo.

O ideal olímpico ensina que a verdadeira grandeza do atleta não reside apenas na conquista de medalhas, troféus ou prêmios, mas também na forma como ele compete, reconhecendo no oponente alguém igualmente digno de respeito. É uma busca de aproximação entre os povos, contribuindo, ainda que simbolicamente, para uma cultura de paz.

É inevitável perguntar se essa transformação não guarda relação com a crescente mercantilização do esporte. O futebol deixou de ser apenas uma competição esportiva para tornar-se uma poderosa indústria global, movimentando bilhões em direitos de transmissão, publicidade, patrocínios, apostas e transferências de atletas. Clubes tornaram-se marcas e objeto de investimentos internacionais; jogadores, ativos financeiros; campeonatos, produtos de entretenimento consumidos em escala planetária.

Nesse ambiente, uma vitória pode representar milhões de reais em receitas adicionais, classificação para competições mais lucrativas, valorização de contratos e aumento da exposição comercial. A derrota, por sua vez, pode significar prejuízos financeiros, demissões e perda de investimentos. Quando os incentivos econômicos atingem tamanha dimensão, cria-se uma pressão permanente para vencer a qualquer custo.

Não seria justo atribuir exclusivamente ao aspecto financeiro a perda de valores éticos. Ainda existem atletas, treinadores e dirigentes que demonstram elevado senso esportivo e oferecem exemplos de honestidade dentro e fora dos gramados. Contudo, é difícil ignorar que a lógica comercial favorece uma cultura em que a busca da vitória tende a sobrepor-se aos princípios que deveriam sustentar a prática esportiva.

Recuperar o espírito do esporte exige mais do que mudanças nas regras ou maior rigor da arbitragem. Exige educação esportiva desde as categorias de base, valorização pública dos gestos de honestidade e uma mudança cultural que volte a reconhecer que o verdadeiro vencedor não é apenas quem levanta a taça, mas quem a conquista sem abrir mão da sua integridade.

O futebol continuará apaixonando multidões. Mas sua capacidade de inspirar novas gerações dependerá menos da quantidade de títulos conquistados e mais da preservação dos valores que fizeram dele um patrimônio cultural da humanidade. Afinal, uma vitória obtida pela simulação, pela violência ou pela deslealdade pode enriquecer um clube ou um atleta, mas empobrece o esporte e decepciona todos aqueles que ainda acreditam que competir também pode ser uma forma de educar.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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