A lenda de Saboia

Edberto Ticianeli

Não sei quem criou essa lenda, mas a ouvi de meu pai várias vezes, principalmente quando tinha que responder sobre seu ateísmo. Acho até que deve ter surgido como piada, mas, para mim, pareceu uma boa saída quando se quer fugir da pregação de algum militante religioso. Vez por outra a utilizo e não me decepciono com o seu poder de por fim a debates improdutivos.

Eis a famosa lenda de Saboia, geradora de uma legião de saboianos.

***

Conta uma velha história — cuja autenticidade jamais foi confirmada nem desmentida pelos departamentos celestiais — que Deus começou a perder a paciência ao ver a quantidade de religiões existentes na Terra.

Sua insatisfação não era com a diversidade. O problema era a convicção inabalável de cada uma delas de que somente a sua possuía o telefone direto do Céu, enquanto as demais ligavam para o número errado.

Depois de assistir, durante séculos, a discussões, concílios, excomunhões, cismas, heresias, cruzadas e intermináveis debates travados em nome da paz, mas que sempre acabavam em guerra, Deus decidiu convocar uma reunião e pôr fim aos desentendimentos.

Escolheu um local neutro e de rara beleza: o espelho d’água do Taj Mahal, em Agra, na Índia, o majestoso mausoléu construído entre 1632 e 1653 pelo imperador mogol Shah Jahan como prova de amor à sua esposa favorita, Mumtaz Mahal, que falecera ao dar à luz do 14º filho. Esperava que a beleza do lugar e sua história servissem de inspiração.

Não funcionou.

Mal começaram os debates, os representantes das centenas de religiões passaram a fazer exatamente o que Deus esperava que não fizessem.

Cada qual empunhava seu livro sagrado como um advogado penal agita o código civil num julgamento. Um garantia possuir a palavra definitiva; outro assegurava ter a única revelação autêntica; um terceiro jurava que os demais estavam todos redondamente enganados. Em poucos minutos já não se discutia quem tinha razão, mas quem teria coragem de primeiro chamar o outro de herege.

O ambiente ficou tão pesado que nem os pombos do Taj Mahal ousavam pousar por perto.

Deus respirou fundo. Estava prestes a perder a fé na humanidade. Ergueu a mão e decretou:

Basta! Já que todos afirmam que seus livros contêm as verdades divinas, façam uma experiência. Atirem-nos sobre a água.

Sem compreender muito bem a finalidade do pedido, todos obedeceram e os livros voaram para a água. Bíblias, Alcorões, Torás, Vedas, Sutras, Tripitakas e tantos outros mergulharam solenemente no espelho d’água.

Apenas um homem permaneceu imóvel.

Deus então voltou-se para ele.

E você? O que está esperando, meu filho?

O sujeito empalideceu.

Na verdade, ele nem deveria estar ali.

Era apenas o guarda-noturno do Taj Mahal que, na noite anterior, participara de uma memorável farra com os colegas. O vinho correra tão generosamente que ele resolveu descansar perto do espelho d’água e acabou acordando cercado por líderes religiosos do mundo inteiro. Como levantar e sair no meio de uma assembleia com a presença de Deus pareceria falta de educação, resolveu permanecer sentado, fingindo importância.

Não representava religião alguma. Quando muito, podia ser considerado um humilde discípulo de Baco, o antigo deus romano do vinho, das festas e da boa disposição.

— Não tenha medo. Pode jogar também — insistiu Deus.

Desesperado, o boêmio procurou alguma coisa nas mãos. Só encontrou ao lado dele a última garrafa de vinho da farra, que estava completamente vazia, mas ainda com a rolha.

Sem alternativa, lançou-a sobre a água.

Seguiu-se um silêncio respeitoso.

Os minutos passaram.

Como Deus previra em sua onisciência, todos os livros acabaram afundando lentamente. A demonstração parecia perfeita: papel, couro e tinta obedeciam às leis da natureza, não às paixões humanas.

Mas havia um pequeno detalhe perturbador.

A garrafa permanecia boiando, imóvel, triunfante, como um marinheiro experiente.

Deus arregalou os olhos.

Aquilo definitivamente não fazia parte do roteiro.

Na verdade, a garrafa apenas obedecia ao velho e implacável princípio do empuxo, explicado séculos depois por Arquimedes. Era física pura.

Mas diante daquela plateia perplexa, não havia tempo para explicações científicas.

Deus, então, improvisou. Apontou para a garrafa e exclamou:

Essa boia!

O silêncio foi absoluto.

Alguns entenderam a frase. Outros entenderam errado — algo como “É Saboia“. E houve ainda os que, a partir dessa constatação divina, resolveram fundar mais uma “religião”.

Assim nasceram os saboianos, únicos fiéis cuja principal profissão de fé consiste em acreditar que, no fim das contas, as leis da natureza sempre tiveram participação destacada nas conquistas humanas.

Edberto Ticianeli

Jornalista e Produtor Cultural. Ex-secretário Estadual de Cultura. Editor dos sites História de Alagoas e Contexto Alagoas.

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